Os caminhos da conjuntura nacional e os movimentos sociais

Existe no Brasil esse tal projeto desenvolvimentista, que implementa sucessivas alianças para governabilidade, o qual está em crise de esgotamento e políticas de submissão ao capital privado — mas que em um momento de crise econômica se explicita a impossibilidade da junção de interesses contraditórios –, além de escolhas de figuras ministeriais caricatas e oligárquicas no período recente, fornecendo ferramentas para que esse lado tomasse forças no plano político-legislativo.

Permanece a imagem de um carismático líder (e um bom gestor de conflitos — leia-se contenção de conflitos) de uma década e um biênio. André Singer chama essa fase de Lulismo, que se trata dessa fase de grande crescimento econômico, expansão universitária, e a estabilidade social, além da adoração desse líder. E diga-se de passagem, em aproveitamento de um bojo de estabilidade econômica proporcionada por estabilização da moeda (plano real) e sucessivas privatizações que deixaram a conjuntura econômica adaptada a esse renovado projeto, porque em meados de 1930 isso era novo, hoje é apenas uma nova versão daquele modelo de projeto econômico populista-industrializado. Lula foi o “New Dealer” da nova república brasileira.

O resultado das eleições de 2014 apontavam para um horizonte menos pacato no âmbito institucional através dos resultados das eleições, em conjunto com a acentuação da crise econômica que acomete países não-centrais com mais força nesse momento. Diferentemente de 2008, onde a crise tinha uma circulação de capital, onde nós éramos os consumidores que prestavam condições para que as economias centrais se estabilizassem, hoje nós não temos isso, ficando na incumbência do Estado. A reparação do mercado através de sucessivos cortes e ajustes fiscais, nesse caminho, contribui para que empresas e bancos, que “nunca antes na história desse país […] lucraram tanto”[1], continuem intactos, intocados.

Isso aponta para um recrudescimento do neoliberalismo despido daquilo que chamamos de direitos trabalhistas e sociais — é um neoliberalismo sem a parte do estado de bem-estar social — lugar onde as coisas se tornam mais explícitas e duras. A flexibilização de direitos está antes em detrimento de uma conjuntura econômica do que partidária.

Li esses dias um artigo bom de Marcos Nobre, onde ele fala que no Brasil, em nosso sistema partidário, qualquer partido que ganhe vai ter no governo a oposição dentro dele, ou seja — a galera já fica dentro pra barrar qualquer projeto mesmo.

Os partidos que estão aí estão faz tempo, mudam o nome, passam o cargo para outras gerações, tem históricos na famílias — eram, por sua vez, coronéis, senhores de escravo e hoje são deputados, senadores, donos de empreiteiras que financiam candidatos, enfim — sabem na prática cotidiana o que significa status quo.

E estamos na idas e voltas das crises do capital: mais na volta do que na ida e está acontecendo– o que não parece vir muito bem é a consciência de classe em prol de um objetivo maior e revolucionário da união das “classes operárias”: ao contrário, a realidade parece bem diferente disso e o PT colaborou bastante para que tudo se tornasse ainda pior nesse sentido.

E os movimentos sociais?

Acho importante a gente tentar fazer análises histórico-políticas mais cuidadosas para entender melhor o que está acontecendo, e gosto de me arriscar:

Fui no ato a favor do impeachment, contra o impeachment e também da galera antifa. Gostei de ver as nuances etárias, os discursos, tentei deduzir algumas coisas observando certos comportamentos, as classes sociais aparentes, a raça, enfim: tudo que pudesse ser feito, como uma pessoa curiosa que até tem umas coisas para fazer, mas a vontade de pesquisar por conta fala mais alto.

Vejo que existe mais realidades além dessa que vivemos na universidade — meu pai é candidato a vereador na cidade de onde venho por um partido de direita, e tenho alguma noção do quanto esses espaços são bizarros, cresci no meio disso e discursivamente, o que entendemos por direita ou esquerda nesses lugares não parecem fazer a menor diferença. Lá pareço meio alienígena.

Voltando…
O aparelhamento de sindicatos não é novidade do PT, no governo Vargas é que essa coisa começou mesmo aqui no Brasil, o lance só teve uma continuidade e estamos vivos para ver os movimentos engessados e que em sua base realmente não parece estar muito que bem para poder levantar alguma contra-posição.

Fora da USP, a UNE faz suas campanhas contra o que está acontecendo, mas mesmo assim, também não representa nenhuma novidade e risco para aqueles que já estavam antes, estão agora e vão continuar. Dentro da USP sei lá — parece que existem posições divergentes ao resto das outras universidades, aqui tem um simulacro de radicalização. Apesar de tudo, até gosto do que o Território Livre (um coletivo de ultra-esquerda) faz, embora não concorde com o que eles falem — fazem o debate acontecer e colocam posições diferentes. E isso é importante para a política, eu acho.

Por fim, vejo algumas rupturas nos direitos sociais e trabalhistas sim, mas nada que não represente mera continuidade de um projeto político maior e mais extenso, além das contradições próprias de um capitalismo monopolista que corta as nossas pernas quando as suas não vão muito bem.

A perspectiva é de que tudo só se torne ainda mais intenso e pior mesmo — nesse lado, com muito custo, eu concordo. Para alguns setores, as coisas deram uma melhorada nesses últimos anos, de fato, por condições econômicas formadas no bojo da neoliberalização e privatizações dos anos 90, que estabeleceram condições para tal. Enquanto alguns outros setores — indígenas, por exemplo — não tiveram nenhum benefício com esse governo.

E tudo só vai ficar pior, pode pá — o bagulho já tá bem tenso mesmo. As minhas esperanças estão em quem tá meio de fora meio disso tudo — a galera secunda é bem responsa e boto fé que eles tem um potencial de mudanças muito grande que a gente não tá ligado ainda — uma galera ainda continua fazendo uns movimentos por aí e isso pode causar muitas transformações. Mas infelizmente, isso ainda está muito longe de ir nas estruturas daquilo que está posto aí, mas que pode balançar alguma coisa, pode não ser hoje — ainda tem muito pra rolar.

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