São Paulo precisa de um Deus frágil

A 463 anos são Paulo existe, aqui criou-se a maior economia do Brasil, levantaram um império, bancos, prédios chiques, avenidas glamourosas a cidade luz da América latina.

São Paulo tem uma religião, seu deus: Mercado. Ele pede alguns sacrifícios e em troca ele devolve prosperidade. Homens se instituíram sacerdotes, separados por graus, porém todos eles se encontram quando o tema é sacrifício. Alguns optaram por doar a si próprio, a família e outros, que podemos considerar os grã-mestres, sacrificam famílias- que não a deles- em culto ao Mercado, e seu filho, o Desenvolvimento.

Temos exemplos de servos fieis, aqueles que ocupam os púlpitos e palanques, homens firmes, que até debaixo de chuva de ovos e xingamentos se mantém de forma inatingível e inabalável. Nossos sacerdotes já nos ensinaram: para seguir ao deus Mercado é preciso ser forte e impiedoso. Ele exige coisas que pessoas fracas não suportariam entregar, nossos gurus falam como prosperar, como viver de forma que agrade ao todo-poderoso, já disseram que você não precisa ser forte só precisa aparentar ser, pois o que importa é a tua aparência, como se porta frente ao inimigo. Para pessoas fracas o que resta é as sobras, as migalhas desta santa ceia, ao chão perto dos pés dos adoradores que não olham para o céu mas olham para si e em um grande louvor cantam a grandeza do que são, louvam seus grandes feitos e suas notórias conquistas.

São Paulo criou um deus forte, poderoso. É necessário destrui-lo precisamos de um Deus frágil, um deus que abre mão da honra e da glória para se fazer pequeno. Precisamos de um Deus frágil pra que nós frágeis diante do poder esmagador do deus Mercado, possamos encontrar descanso. Precisamos de um deus que inverta a lógica de poder, precisamos de um deus que sofre, não mais um deus inatingível mas um Deus que caminhe próximo. Um Deus que não peça sacrifícios mas que se entregue como único e suficiente sacrifício, disposto a sangrar pra que sangue de mais nenhum inocente escorra nas favelas de São Paulo. Sem hierarquia para seus seguidores, que o louvor deles não olhe para o céu, nem para si mas que seu canto seja a mão estendida ao próximo, São Paulo precisa de um Deus marginal que caminhe pelas periferias onde o Mercado e seus súditos nunca chegaram. Os pobre e devastados encontram na fragilidade do Cristo - o Deus frágil- a força. A loucura do Deus frágil que por ser frágil é forte, se encontra nas Marias e nos Josés que saem de suas casas em ônibus lotados e vão rumo ao serviço daqueles que adoram o Mercado, enfrentam rotinas exaustivas e as dores de ser marginal em uma metrópole. Os servos fies ao forte deus são frios e impiedosos demais para serem atingidos pela força que se faz presente quando se é fraco, São Paulo precisa ser fraca para assim ser veraneável a força da fragilidade. São Paulo precisa de um Deus frágil, eu preciso de um Deus frágil.

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