O Ego Dinâmico

Dizia: “Ao reino da alegria eu me entrego, porque aqui jaz o cadáver do meu ego”.

Prazer e sentido. As duas coisas que os seres humanos buscam na vida (ou ao menos tentam).

Prazer é o desejo para dentro, aquilo que satisfaz o ser em sua mais plena natureza.

Logo, há o prazer natural - sexo, contato com a natureza, escutar uma música que enerva os mais tímidos pêlos do corpo. Comer, dormir, correr.

Também há o prazer artificial. As drogas mais diversas (a indústria “farmacêutica” e clandestina que o diga), o fetiche mercadológico do consumo. O sadismo/voyeurismo virtual. Esse prazer tão fácil que é quase confundido com o natural.

(Seria quase mesmo)?

Um dia me perguntaram sobre algo que eu goste muito de fazer. Respondi “escrever, sem sombra de dúvidas ”. Seguido disso, veio a (já esperada) indagação: “Mas você ganha dinheiro com isso?”

“Bem que eu gostaria!”, acabei por dizer num tom de descontração (muito provável que tenha sido uma outra expressão repleta de figuras de linguagem, mas foi algo nesse sentido).

Fiquei dias pensando nisso e cheguei a conclusão do quão grave é esse tipo de pergunta.

Não em relação ao fato de ganhar dinheiro fazendo algo que goste. Afinal, isso é o sonho da geração atual (e talvez a frustração de alguns que deixaram passar a oportunidade).

A questão é a colocação da pergunta. Seu enunciado prediz a recompensa financeira anterior e prioritária à recompensa espiritual.

Não quero dizer espiritualidade no contexto religioso, e sim no valor subjetivo das suas ações diante do todo.

Eis que chegamos ao sentido.

O sentido, diferentemente do prazer, é o desejo para fora. “É fazer algo pelo outro de maneira a potencializar sua existência, sua singularidade” (ROHM, Ricardo - Aula inaugural do curso de Liderança e Comportamento da UFRJ/2017). Numa leitura pessoal, talvez seja ajudar o outro a encontrar o seu prazer e sentido na vida.

Lembre-se do início desse texto: nós buscamos prazer e sentido, e isso não significa que de fato os encontramos.

Existe uma fenda colossal entre busca e encontro do Sentido, pois seu irmão megalomaníaco Prazer quer ocupar todo o esforço da humanidade, alimentado cada vez mais pelo individualismo das sociedades e, penetrando em nossas internalidades, pelo ego.

Um ego tão sistemático e controlador de nossas ações e amplamente manipulado pelo utilitarismo. Insistimos em investir num plano de carreira, atropelando tudo e todos (inclusive a si mesmo) com o intuito de conquistar status e prestígio social ad infinitum. É a manifestação cabal do ego exacerbado, que se recusa a morrer para dar lugar a um outro mais sensível e coletivo.

No vídeo genial de Dan Pink, ele expõe, utilizando uma linguagem bem nítida e até divertida, algumas inferências sobre motivação intrínseca e motivação extrínseca. Sem muitos detalhes a revelar (assista o vídeo, sua/seu preguiçosa[o]!), vemos a tendência das pessoas valorizarem mais a motivação que vem de fora (salários altos, reputação, fama) e minimizar a importância interna: autonomia, maestria e, alvo de nossa discussão, o propósito.

O Sentido estimula o encontro do Vocare - latim da tão conhecida palavra vocação. E de sua vocação surge o propósito.

Esqueça um pouco desse termo em contextos organizacionais e foque no seu propósito pessoal. Todo propósito, antes de figurar como praxis (ação), deve compreender uma demanda social relevante.

O que eu faço de fato ajuda a sociedade ou apenas alimenta meu ego frágil?

O que você mais gosta de fazer?

Existem três elementos cruciais para identificar a melhor resposta:

1 - Eu faria isso mesmo que ninguém venha a solicitar/mandar? (Autonomia)

2 - Continuaria fazendo com tanto gosto e paixão, melhorando todo dia? (Maestria)

3 - Como posso juntar prazer e sentido (sem que os irmãos briguem entre si para assumir o posto de “funcionário do mês” na Empresa Ego S.A), de forma a ajudar o outro fazendo o que gosto? (Propósito)

Comece pequeno. Esse mundo cada vez mais megalomaníaco e superficial irá sim tentar desmotivá-lo sobre o quão humano e diferente dos padrões você pode ser.

Quando escrevo algo, deixo bem claro para o meu ego safado: “Você vai se satisfazer nem que seja com apenas uma pessoa lendo!”

Penso que, se meu texto for capaz de mudar a vida de uma pessoa, transformando-a em um ser mais humano consigo e para outros de seu círculo social, então estarei suficientemente realizado e feliz.

A felicidade está no outro, nunca apenas em si.

Uma pessoa. Imagine se cada um de nós, largando a capa do individualismo, fossemos capazes de viver fora da caixa hedonista e egocêntrica, encontrando-se no outro de forma plena e sustentável. Não precisa ser dezenas, centenas, milhares, milhões.

O prazer é linear.

O sentido é exponencial.

Portanto, gostaria de decretar a morte ao ego estático, que nos implode de tanta energia narcisista, deixando o indivíduo doente (e a sociedade por extensão).

Que consigamos alcançar, cada um no seu esforço contínuo, a era do ego dinâmico.

Mate seu ego todo dia, e permita que surja um outro, mais sensível e coletivo do que o anterior. E continue fazendo isso, pois o encontro do prazer e sentido está na jornada, e nunca no final.

Forfun nunca esteve tão filosoficamente certo na canção Eremita Moderno. (O pop punk é muito lindo, pode falar).

Entregue-se ao reino da alegria e leve o outro contigo.

E onde jaz o cadáver do seu ego?

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