Óculos novos

se tem uma coisa que eu tenho aprendido cada dia mais com esse negócio de "largar tudo" é enxergar.

não. por mais estranho que possa parecer, não é desapegar nem viver com pouco ou todo esse lance de vida simples. aliás, é também. mas, acho que se não a maior, uma das maiores lições que estou tendo é enxergar. sim. enxergar. ver melhor. reparar. perceber. acordar. a-cor-dar. dar valor. tu pode chamar de várias formas.

cada dia que passa eu tomo mais consciência de tantos presentes que sempre recebi, mas que só hoje eu passei a ver com mais clareza. como se tivesse acordado de uma vida míope sonolenta e ingrata.

digo "hoje" porque durante os últimos 30 anos da minha vida, em nenhum ano, em nenhum mês, em nem sequer um dia eu deixei de receber os tais presentes. mas só recentemente eu comecei à prestar mais atenção, digamos, nestes "detalhes".

detalhes estes que, para tantas outras pessoas, ainda vem passando despercebidos. subestimados. apagados. desperdiçados.

é como se, de repente, eu conseguisse dar um significado, um valor para cada "besteira" do dia a dia. como se nos últimos 30 anos eu estivesse sem meus óculos e não pudesse enxergar estes detalhes.

" depois que a gente vê não dá pra desver. "

com certeza, esses não serão meus óculos definitivos e ainda poderei enxergar muitas outras coisas mais claramente daqui uns anos. mas, por hora, estes estão ótimos. acabei de vestí-los, são recentes. e, como é bom enxergar!

agora, de óculos novos, não dá mais para ignorar tanto desperdício por todos os cantos. de todos os tipos. desperdício diário, covarde, silencioso, negligente, egoísta, absurdo, ingrato, irresponsável, violento e, muitas vezes, até criminoso. que permeia a minha, a sua, e as vidas de todos nós.

até que ponto enxergar é ou pode ser só uma questão de escolha, ou de decisão, ou até de coragem?

será que todo esse desperdício não é produto de muita "vista grossa" nossa? de muito "vou fingir que não vi"? ou de, deliberadamente, fechar os olhos/virar a cara enquanto tudo acontece debaixo dos nossos narizes?

e o que seria passar a ver melhor, enxergar, acordar? o que tanto temos deixado passar, deixado de dar a devida importância? o que tanto temos ignorado, desperdiçado ou simplesmente jogado fora?

será que temos focado nossos pensamentos, nossos sentimentos, nossas ações, nossas emoções, nossa atenção, nosso dinheiro e nossa dedicação nas coisas certas? será que temos focado o nosso tempo no que realmente importa? será que não estamos deixando passar muita coisa?

o que eu tenho visto são pessoas que mal se falam, que mal se olham, conectadas à seus smartphones (smart?), mas que desperdiçam a chance de, verdadeiramente, conversar, conviver, se conectar e compartilhar momentos.

pessoas lotadas de coisas que nem dão conta de usar e, muitas vezes, nem de pagar por elas.

pessoas que para financiar todas essas coisas(que não serão usadas) negociam seu trabalho. seu tempo de vida. e trocam por mais alguns pares de sapatos, por outro carro na garagem, pelo último iphone.

as brincadeiras com o filho, os passeios com a família, aquela 1 hora de exercícios, aquelas horas a mais de sono, aquela refeição preparada com todo carinho e todos aqueles momentos prazerosos, que cada um sabe quais são, também entram nessa negociação.

um sem-número de momentos desperdiçados para se manter um estilo de vida preenchedor de vazios, nos enchendo de coisas que, supostamente, nos aproximariam de nós mesmos, ou de quem gostaríamos de pare(s)er. mas será?

hoje, eu olho para os lados e enxergo o quanto temos desperdiçado nossos presentes, esses "pequenos detalhes" que sempre estiveram aí..

momentos com os nossos pais. com os nossos familiares. momentos com os nossos amigos. com os nossos amores. momentos com ela. momentos com ele.

toneladas e toneladas de alimentos. de frutas, verduras e legumes bons. de comida. jogados fora. sem falar nos animais. seres como nós. escravizados e sacrificados para movimentar e alimentar uma indústria e toda uma sociedade que nem dá conta de consumir tanto. uma carnificina.

desperdiçamos céus cheios de estrelas com nossos arranha-céus e refletores. desperdiçamos o brilho e o calor do sol com tantos escritórios, shoppings, ternos e gravatas.

desperdiçamos saúde e um corpo perfeito com tanta preguiça, drogas e doença. desperdiçamos a água dos nossos rios, lagos e mares com tanto "avanço", espumas e gases.

desperdiçamos tantas belezas naturais e natureza construindo mansões mirabolantes que engolem nossas paisagens.

desperdiçamos todos os dias o nascer e o pôr-do-sol. muitos de nós nem sabíamos que a lua, como o sol, também nasce no horizonte. mais uma coisa que desperdiçamos: observar. não sobra tempo.

desperdiçamos momentos acumulando coisas.

dentre tantos desperdícios que eu tenho enxergado, o mais triste é desperdiçar o maior presente de todos os presentes que nos é dado. TODO SANTO DIA desperdiçamos nosso TEMPO sem aproveitar tantas coisas boas, simples e gratuitas, construindo castelos(ou túmulos) com muros gigantescos de desperdícios empilhados como tijolos nos cercando, nos isolando e nos afastando pouco a pouco de quem realmente somos, de nós mesmos(seres humanos) e uns dos outros. com cada vez mais. cada vez menos.

" Erguemos muros que nos dão a garantia de que morrermos cheios de uma vida tão vazia. " Humberto Gessinger