14 lições que aprendi mochilando

a vida na estrada tem me ensinado muito sobre a vida em si e é o tipo de coisa que recomendaria para um(a) filho(a) meu(minha), se tivesse um(a). vou tentar contar um pouco dos meus aprendizados e as aplicações no dia-a-dia da gente para uma vida mais rica e menos limitada.

1- não existe lugar mais limpo do que a natureza

esse lance de “caca” que muitos pais colocam na cabeça das crianças é uma baita babaquice. NÃO EXISTE LUGAR MAIS LIMPO DO QUE DENTRO DA NATUREZA.

é só parar para se perguntar: quem chegou primeiro?

sentar no chão, “se sujar”, andar de pé descalço e pisar na terra, nas pedras, em poças d´agua, no barro, em poças de lama, brincar na areia, com os bichinhos e deitar na grama. nada disso é sujo. sujeira é criada por nós humanos. pelos resíduos que NÓS estamos despejando na natureza.

esse monte de borracha, plástico, combustível, fumaça, metais pesados, gases, cremes, sabonetes, sprays, espumas e agrotóxicos.

esse bocado de coisas que produzimos, consumimos e descartamos. isso é que é sujo. podre. venenoso.

eu costumava matar uma barata sem pestanejar, até que um dia eu me dei conta de que ela não ta onde deveria estar, na natureza, por interferência nossa, nós é que estragamos a festa delas construindo casas, pisos, muros e tubulações, por mais estranho que isso possa soar. hoje, eu devolvo esses bichinhos para a natureza ao invés de estraçalhá-los impiedosamente. nós fazemos parte da natureza. a natureza não é suja. é a coisa mais pura que existe. nós deveríamos voltar a nos relacionar duma forma mais próxima e livre de nojinhos nojentos com ela.

não consigo achar nada melhor e mais libertador do que ficar pelado e andar descalço no meio da natureza.

2- movimento

movimente-se. estar em movimento acho que é uma das maiores lições de todas. tanto fisicamente quanto geograficamente, o movimento nos enriquece de várias formas, nos enchee de energia, traz novidades, nos coloca em contato com novos desafios, novos horizontes, novas culturas, novas formas de enxergar o mundo e nos faz mudar por dentro e por fora.

não somos árvores nem plantas fadadas a permanecer sempre ali, parados, plantados no mesmo lugar até o dia da nossa morte.

3- desapego

desapegue-se. também ta ligado ao movimento e à mudança. desapegar tem sido outra grande lição durante as minhas andanças. como disse Thoreau uma vez:

” a riqueza de um homem é medida pelo tanto de coisas que ele NÃO precisa. ”

à medida que fui entrando cada vez mais de cabeça nesse estilo de vida fui percebendo que a maioria de nós carrega coisas, sentimentos, arrependimentos e pesos demais durante a vida e fica muito mais difícil de seguir em frente. toda vez que faço a minha mochila sempre tento deixá-la mais leve e ir desapegando de mais alguma coisa que tenho mas que quase não uso ou não preciso. a ideia é deixar a mochila e a vida cada vez mais leve.

4- não sabemos nada/humildade

é uma das frases que mais tenho falado durante as minhas trips. praticamente todos os dias descubro algo novo, conheço a história de alguém ou de algum lugar, algum tipo de alimento ou forma diferente de fazer algo. amplio meu conhecimento.

em resumo, quanto mais nos abrimos e nos movemos em direção ao desconhecido, mais temos a noção do quanto somos limitados e o tanto que ainda podemos aprender com as pessoas, experiências, observando os animais e com a própria natureza. nos tornamos melhores ouvintes, mais tolerantes e humildes para novas ideias, conhecimentos e opiniões.

5- eternos aprendizes/continuar curioso

exatamente por nos abrirmos para novos conhecimentos, ideias e pontos de vistas ficamos muito mais curiosos e nos tornamos melhores aprendizes, aprendemos mais, não da forma convencional, chata e acadêmica, mas duma forma prática e no nosso próprio ritmo. nos metemos a fazer coisas diferentes ou novas só pelo fato de nos sentirmos exploradores, como crianças mesmo, famintas de estímulos e experiências novas. coisas que, talvez, se estivéssemos confinados numa rotina automática não estaríamos dispostos a nos submeter ou nos arriscar.

dessa forma não nos cansamos de conhecer e aprender e estamos sempre curiosos.

6- respeitar a individualidade/liberdade

o que esperamos do outro é problema nosso. e vice-versa. todos nós temos as nossas próprias preferências, gostos, ritmo, valores, opiniões e formas diferentes de fazer as coisas. e a liberdade(o livre-arbítrio) para escolher o que fazer, como fazer e quando fazer essas coisas, ou não.

cobrar comportamentos ou impor as nossas vontades é violar a liberdade e a individualidade do outro seja quem for. cada um tem uma forma só sua de ver a vida e encarar as situações. a melhor forma de evitarmos conflito é fazermos a nossa parte e servir de exemplo e tentar não julgar nem condenar o outro por sua forma de pensar ou agir. cada um faz o que quiser da sua liberdade. respeitar isso é respeitar a vida e a individualidade e, automaticamente, zelar pela sua própria liberdade.

7- autoconhecimento/ser você mesmo é o que te torna único

por estar muito mais próximo de mim mesmo e convivendo muito menos com colegas de trabalho, faculdade, familiares e namoradas, acabo fazendo as minhas coisas do meu jeito, falando ou sentindo tudo que me acontece duma forma mais autêntica, o que me permite perceber as minhas características positivas e negativas que me tornam único e a trabalhá-las. isso tem me ajudado muito a me conhecer melhor, a me valorizar e a saber melhor o que quero e o que tem a ver comigo. assim fica muito mais fácil de fazer escolhas e tomar decisões.

8- estar sempre atento/presença

uma coisa sensacional que a viagem proporciona é estar sempre em alguma paisagem ou algum tipo diferente e novo de ambiente. por isso, precisamos estar, até como forma de sobrevivência, a todo tempo com os nossos olhos bem abertos e todos os nossos outros sentidos bem apurados para algum obstáculo ou até algum acidente, mas principalmente porque é tudo sempre novidade. e ninguém quer perder nada distraído mexendo no celular.

isso nos faz dar muito mais valor para os momentos e experiências. muitas vezes esqueço de registrar com fotos vários momentos inesquecíveis por estar tão atento/presente/imerso no momento presente. e no final de tudo acho que é isso que faz toda a diferença: momentos.

9- ser simples/simplicidade

para poder estar constantemente em movimento e aberto para as novas experiências é imprescindível que eu esteja desapegado de luxos, excessos e mimimis.

dormir numa rede, dentro duma barraca, sem colchão, em quase qualquer lugar, beber água de poço, de bicas, de riachos. lavar roupa no banho, na ducha ou na água do mar. comer frutas do pé, sentar no chão, se divertir com a fogueira, em acender o fogo, em olhar para o fogo. ficar em volta da fogueira lendo poemas, cantando, falando besteiras, sem precisar de lâmpadas, computadores, celulares nem ar-condicionados, só de lenha, uma, duas ou três paneladas de pipoca e boas companhias.

coisas simples e deliciosas que fazemos quando somos crianças e que, com o acumular dos anos, das atribuições e das tralhas tecnológicas, vamos abandonando e esquecendo. outra coisa sobre ser simples e que também tem a ver com humildade e valorizar o que o outro pode nos oferecer é saber que sempre precisamos de alguém invariavelmente de alguma forma e que precisamos ser simples/humildes para podermos aceitar ajuda sem tornar isso algo negativo ou fraco.

10- senso de contribuição

da mesma forma que recebo ajuda com as minhas necessidades também me sinto bem em ajudar outras pessoas quando tenho a chance. os relacionamentos e a convivência se tornaram grandes oportunidades de contribuir, verdadeiras ferramentas de crescimento mútuo.

não gosto de partir de algum lugar sem a sensação de que contribuí de alguma forma.

11- viver intensamente

dar valor. ser grato. demonstrar afeto. abraçar. beijar. aproveitar as oportunidades.

viajando acostumo-me a chegar e a partir com muito mais frequência. são incontáveis inícios e fins, começos e recomeços, nascimentos e mortes a cada chegada e despedida. nunca sei ao certo quando e se irei, de fato, voltar.

por estar sempre em movimento/seguindo em frente estou aprendendo muito sobre a delicadeza e a brevidade das nossas vidas e dos nossos encontros. por isso tenho tentado valorizar todos os momentos que tenho ao meu dispor sozinho ou em grupo.

o calor e a luz do sol, a quietude do frio, o aconchego duma fogueira, o sabor e o valor dos alimentos, a beleza e a vida das árvores, o carinho desinteressado e a vida dos animais. cada galho que vira lenha, cada flor que enfeita o caminho, cada fôlego que tomamos.

a nossa vida toma outra intensidade e ganha muito mais intenção quando nos damos conta de que aquela pode ser a última vez.

12- somos abundantes/gastar pouco

o grande lance de se poder viajar leve, simples, desapegado e com pouco é não precisar de quase nada além de alimentação, que pode ser muito barata se você optar por uma dieta à base de plantas e não consumir bebidas alcólicas nem outras coisas industrializadas.

teoricamente, para se deslocar muita gente utilizaria carros ou ônibus, mas pode-se viajar de carona tomando alguns cuidados, a pé na raça mesmo ou de bike, o que barateia bastante os custos e dá um up nas aventuras, além de ser muito mais divertido.

acampando, comprando minha comida quase exclusivamente em sacolões e selecionando o que estiver mais barato, preparando a própria comida e utilizando os wi-fi abertos de locais públicos eu reduzo muito os gastos e não deixo de curtir as paisagens, as pessoas e as experiências.

vivendo assim eu percebi o tanto de coisas que consumimos e que nos requeer tempo, ou para manter, ou para adquirir além de manter e que nos furta o precioso tempo que teríamos para nos dedicarmos a coisas realmente valiosas e gratuitas que só nos exige estar ali presentes e vivos. percebi que o dinheiro pode sim te dar coisas, mas pode te tirar muito mais se você não souber usá-lo conscientemente.

13- vagabundear

a impressão é que estou em férias eternas vivendo na estrada. faço coisas incríveis, conheço e passo quase todos os dias por lugares paradisíacos. um lugar novo e diferente do dia anterior, encontro pessoas, faço amigos e como coisas deliciosas.

tudo isso SEM PRESSA DE IR EMBORA. sem ter que pensar no trânsito para voltar ou no horário da reunião. tenho vivido, para usar o termo certo, vagabundeando, que significa vagar pelo mundo, exatamente como os outros animais (livres), sem obrigações, a não ser a de viver da forma que eu conseguir e não fizer mal a ninguém. ir quando quiser ir. ficar quando quiser ficar. voltar se estiver a fim. descansar e dormir quando me cansar. ter compromisso com a minha vida e com o meu tempo e mais nada. escrever sempre que a inspiração vier e a vontade bater. correr. treinar. paquerar. namorar. escalar uma árvore.

ter o tempo andando ao meu lado como um aliado e não correr contra ele como um inimigo a ser superado. viver livre, leve e solto e não se sentir culpado.

14- dizer não/autorresponsabilidade

a liberdade que experimento todos os dias tem me ensinado que ninguém pode fazer nada por você exatamente da maneira que você quer. dessa forma percebi que podemos e, muitas vezes, precisamos sim de ajuda ou dum favor, dum conselho ou duma opinião que seja, mas não existe mais ninguém na face da terra, nem no universo, muito menos um deus que seja responsável pelo rumo que as nossas vidas tomam.

a única pessoa que pode e deve fazer algo por nós somos nós mesmos. e isso inclui aceitar ajuda, conselho e opinião, ou até ser tratado de uma certa maneira, ou seja, dizer sim.
da mesma forma, nós é que devemos recusar, dar um basta ou sair de alguma situação que não nos faça bem. ninguém que não tenha uma arma apontada para a cabeça é obrigado a nada e pode sim DIZER NÃO.

eu estou aprendendo isso e exercitando muito sustentar as minhas escolhas sem me fazer de vítima ou jogar a culpa em alguém e assim, assumir a responsabilidade pela minha nova vida todos os dias. só tenho feito o que quero e me faz bem e não posso reclamar.

essas foram as coisas que me lembrei de mencionar mas, enquanto viver eu continuarei faminto e curioso. continuarei aprendendo.

se você que está terminando de ler isso puder também faça isso por você um dia. saia por aí, pelo menos por uns tempos, só com o essencial e explore, viaje, viva, como se fosse o último dia de sua vida. e não pare de aprender enquanto seu coração estiver batendo dentro do peito. você pode até já saber de tudo isso, mas eu te garanto: você nunca mais verá a vida da mesma forma.