Seus segredos de trabalho não vão sobreviver por muito tempo

A delação das agências de comunicação e o impeachment da velha propaganda

URGENTE: Jovens criativos e inovadores trabalham para agências lideradas por grandes nomes do mercado. Juntos entregam projetos que ninguém usa, com métricas que ninguém acredita.

Poucas coisas evoluíram tanto e em tão pouco tempo quanto nossas formas de comunicação. Lembre que em 2006 o Facebook ainda era uma rede social fechada, focada em universitários americanos, e o iPhone nem tinha mostrado sua cara ao mundo. Em uma década a tecnologia trouxe a possibilidade de interagir e criar conexões como nunca antes.

Mas poucas coisas ficaram tão paradas no tempo quanto o mercado de comunicação. Agências presas a glórias do passado tem uma dificuldade gigantesca em acompanhar essa evolução, mas seus gestores vendem promessas tão inovadoras quanto vazias para clientes frequentemente leigos na linguagem moderna e cheia de jargões que chega aos seus ouvidos nas mesas de reunião.

Se você é cliente de uma agência, esse texto vai fazer te fazer entender por que suas campanhas não funcionam.

Se você é gestor de uma agência, esse texto vai te fazer entender por que seus funcionários vão embora em menos de 1 ano.

Se você trabalha em uma agência, esse texto vai te fazer entender por que você é parte do problema.

A delação colaborativa

Quem trabalha com comunicação certamente recebeu na última semana o link da planilha que deixou muitos gestores de agências desesperados. Se você não faz parte desse grupo, eu explico.

O post abaixo foi criado no dia 17/08, pedindo opiniões e relatos sobre o dia a dia nas agências de São Paulo.

A pesquisa correu a internet e em pouco mais de 24 horas tivemos o resultado: uma planilha com mais de 1000 linhas de relatos anônimos. Lá você irá encontrar de salários atrasados até casos graves de abuso sexual. Não demorou para que fosse retirada do ar (mas colocaram algumas copias por aí).

Mas isso foi só o início. Criaram um grupo no Facebook para dar continuidade aos relatos, e profissionais de outras áreas criaram listas similares. Foi aberto um espaço para a discussão do futuro de uma área que quer viver em um mundo de negócios que um dia foi pautado em premiações, festas e madrugadas viradas, mas está deixando de existir.

Com propósito ele trabalharia.

O seu lado, o meu e a verdade

O poder do anonimato deu a chance para que muitos profissionais falassem tanto verdades necessárias quanto criassem intrigas por nada. Sejamos mais práticos e vamos trabalhar com fatos.

Agências vendem para clientes um passe mágico para o mundo da inovação, criatividade e resultados, e contratam funcionários com descrições de trabalho que trazem grandes chances de aprendizado em um ambiente desafiador, descontraído e focado em boas contas. Na prática, temos trabalhos que nunca retornam o investimento, feitos por profissionais desmotivados e sobrecarregados.

Imagine se essa equipe também trabalhasse para o seu concorrente?

Promessas são feitas, mas nunca cumpridas.

A planilha nos dá um dado importante sobre a visão dos funcionários: faltam líderes com visão e gestores nas equipes. Essa reclamação fica muito acima do registro CLT, tão raro na área quanto o pagamento em dia, e das rotineiras jornadas de 12 horas de trabalho feitas por workaholics extremamente ineficientes. Existe toda uma geração de profissionais dispostos a fazer trabalhos relevantes, que esbarram na visão limitada de CEOs presos a velhas fórmulas.

A agência é sua casa. Sério, pode trazer o travesseiro.

Não entenda isso como utopia, afinal existem contas a serem pagas. Mas se por um lado é difícil manter uma empresa no Brasil, nunca foi tão fácil ter uma empresa no Brasil. Existe um êxodo de talentos na área de comunicação em todo o mundo, e esses criativos estão aproveitando o boom do empreendedorismo e abandonando locais medíocres em prol de startups, equipes in-house de clientes ou trilhando uma jornada solo.

A publicidade morreu. E agora?

Se você é cliente, não pense duas vezes: demita sua agência que foge de resultados. O mercado está cheio de profissionais e empresas dispostos e preparados a entregar um trabalho ótimo. Mais que uma grife, procures pessoas que falam a sua língua e vão ajudar sua marca a atingir outros patamares.

Se você é gestor de uma agência, abra os olhos. Você perde a lealdade da sua equipe toda vez que mais uma noite é virada para fazer o milésimo trabalho clichê em 3 anos, criado com equipamento defasado e entregue como a solução aos problemas que o cliente nunca teve. Seu tempo de vida no mercado é cada dia menor.

Se você trabalha em uma agência e está insatisfeito, vá embora. Atacar anonimamente mas passar anos sentado em uma cadeira sem denunciar abusos aos meios legais não traz melhora alguma ao mercado. Você só tem uma vida e, se é tão capaz quanto acredita, pode fazer a diferença em outro lugar.

Em 1947, Bill Bernbach trabalhava como diretor criativo na Grey. Escreveu uma carta aos diretores, mostrando suas preocupações com o rumo que a agência tomava. Veja um trecho:

Nossa agência está crescendo. Isso é motivo para estarmos satisfeitos. Mas também é algo para nos deixar preocupados, e eu não vou negar que estou muito preocupado. Estou preocupado que iremos cair na armadilha da grandeza, de cultuarmos técnicas em vez de essência, de seguirmos a história ao invés de fazê-la, de nos afogarmos em superficialidades em vez de nos mantermos à tona com fundamentos sólidos. Estou preocupado que nossas artérias criativas comecem a endurecer (…)
(…)Deixe-nos traçar nossos caminhos. Deixe-nos provar para o mundo que bom gosto, boa arte e boa redação podem ser bons vendedores.

Não recebeu resposta. Bill se demitiu e virou o “B” da hoje mundial DDB.

A base da comunicação ainda é simples e feita de diálogos e conexões entre pessoas. A transformação digital nos dá ferramentas, mas o trabalho precisa ser feito por quem acredita na mensagem que transmite. Você acredita na sua?