Relato de quem não sou
Uma breve história sobre rotina.
São Paulo, 26 de março de 2015–22:31
Fui até o armário superior da cozinha, no canto esquerdo. Ladead0 com uma moldura entalhada e uma pátina branca recobrindo tudo. De certa forma me identifico. Acho que é a tinta branca que disfarça as imperfeições. Um belo armário. Pomposo como os tempos os quais não me lembro.
Abro-o para escolher qual será a toada da noite, mas me engano propositadamente achando que realmente tinha escolha. O interior do armário é a metáfora perfeita. Reflete com clareza espantosa quem somos, ou o que nos permitem ser.
Olho para as manchas que misturam fungos e poeira. Elas delimitam aquele espaço como fronteiras geográficas estratégicamente posicionadas, que, a qualquer momento, podem entrar em conflito, apenas para definir qual deus é mais bondoso. Como numa foto de colegial antiga, quase posso ver a ordem simétrica das garrafas que ali já estiveram presentes.
E sim, eu sei que deveria escrever deus com letra maiúscula.
Hoje só tenho o whisky comigo. Pego-o pelo pescoço e logo avisto o reflexo cobre recoberto de tonalidades rubras dele em contato com a luz incandescente piscando de forma irregular.
Procuro um copo baixo.
São Paulo, 26 de março de 2015–22:39
Sirvo me de um trago e coloco um dedo a mais de água no copo, na tentativa de parecer mais com meus ídolos. Me deparo numa situação precária.
“Estou conseguindo”, penso contente.
São Paulo, 26 de março de 2015–22:45
Antes de acender meu cigarro pego meu celular e disco um número.
— Oi, como está?
— Estou bem, sozinha.
— É o melhor que pode fazer. — Não tem nada melhor pra gastar seu tempo né? — Não estava com saudades dessas perguntas retóricas. — Não posso tirar toda a roupa agora, posso só mandar a foto de um peito.
— O esquerdo?
Negocio avidamente como um daqueles corretores engomados da bolsa durante o fim do expediente no dia que estourou a crise de 29.
— Pode ser, se você não me encher mais.
São Paulo, 26 de março de 2015–22:49
Essa oferta foi a minha taxa comercial do dólar. Me senti um exímio negociante. Mas eu sei que a foto não vai chegar.
Volto ao meu rito e acendo um cigarro. Deposito um copo com restos de café para bater as cinzas e me sento à frente da folha. Num momento hesito, tento pegar o lápis que serpenteia por toda a mesa. Ele ainda pode me rasgar com aquela ponta que fiz questão de afiar. Entre todas as tentativas de pegá-lo, dou meu último trago findando o incentivo que se encontrava no copo.
Ao ver um ciclo vicioso de tentativas e erros surgindo, decido desistir. Essa sem dúvida é minha melhor decisão daquele dia.
Vou me deitar com a terrível sensação de dever comprido, mas antes de fingir cair no sono, uma luz acalanta todo o quarto, veio do celular.
“01 nova foto recebida”
A noite não estava perdida afinal.