Negritude e Comunidade LGBT : Essa comunidade serve a quem?

Kimberlé Williams Crenshaw (advogada, feminista negra e especialista em questões raciais e de gênero) desenvolveu na década de 90 o Conceito de Interseccionalidade, conceito que, mesmo considerado recente pela acadêmia, vem sendo discutido dentro de muitos movimentos sociais.

A Interseccionalidade trata sobre o corpo do individuo diante de Estruturas de Opressões, essas opressões que cercam esse corpo irão se encontrar (formando a Interseccionalidade) e juntas formarão uma espécie de carga de opressões (Identidades Múltiplas). Ou seja, um homem, antropologicamente, um indivíduo, socialmente, um representante de uma estrutura de poder. Agora pense em um homem pobre, negro e gay, ele não é só um homem, ele é um homem de Identidades Múltiplas, um homem que sofrerá com o racismo, com o classismo e a homofobia, ou seja, o diálogo sobre indivíduo e sociedade precisa ser erguido em um alicerce de estudos sobre Raça, Classe, Gênero, Etnicidade e Sexualidade para que em nossas abordagens discursivas não atropelemos silenciosamente indivíduos que possuem Identidades Múltiplas.

Agora a pergunta que não quer calar: A Comunidade LGBT é Interseccional? Ou melhor, A Comunidade LGBT se importa com LGBT’s Negros?

Recentemente um grupo LGBT da Itália produziu uma arte que tinha como foco divulgar uma festa que ocorreu no dia 13 de abril (quinta-feira). A arte é uma reconstrução do quadro ‘’A Última Ceia’’ de Leonardo da Vinci que representa literalmente a última ceia de Jesus e seus discípulos. O Grupo DiverCity reconfigurou a arte colocando homens gays se relacionando sexualmente, se beijando, excitados, etc… (imagem a seguir)

Reconfiguração da Arte ‘’A Última Ceia’’ (Leonardo da Vinci) feita pela Comunidade LGBT DiverCity.

‘O objetivo do texto não é falar sobre religiosidade e se a arte foi ou não arbitrária e/ou desnecessária, muito menos levantar algum parecer de que foi preconceito religioso mas através da reconstrução artística da obra, mais uma vez levantar o debate e a reflexão sobre representatividade e invisibilidade. Seguimos!’

A mesa é composta por quem? Quem é a comunidade LGBT que nela está? Essa reconfiguração é uma micro representação ideológica do movimento e da sociedade?

A arte acima é representada por homens brancos, musculosos, de fato uma padronização do perfil de beleza do homem ocidental. Bibliograficamente e Biblicamente falando, Jesus só tinha apóstolos homens, todavia, se a arte não se tratava de uma reconfiguração feita pela famigerada Comunidade LGBT, por que não colocar mulheres lésbicas? E numa mesa com 12 personagens não há 1 (uma/one/una) pessoa negra?

Pessoas Pretas LGBT’s não precisam de acolhimento de uma comunidade euro-centrada mas é importante reconhecer que a comunidade LGBT é uma representação em modo micro de uma estrutura que invisibiliza pessoas negras, inclusive até mesmo dentro de uma comunidade para pessoas LGBT’s ainda sim existe silenciamento de Pessoas Negras Não-Heterossexuais.

Azealia Banks sobre a Comunidade LGBT:

“A misoginia de homens gays está me matando. Não quero mais estar associada a nada LGBT. Porque na verdade não é LGBT como aparenta ser, é GGGG e estou cansada de homens gays brancos controlarem toda a comunidade LGBT. Não quero estar relacionada a nada gay, especialmente quando vocês TODOS acham que bissexualidade é algo falso. Gays brancos não apoiam ninguém da comunidade além deles mesmos, estou cansada disso. Me deixem fora disso por favor.”

Esse apagamento histórico construído pelo homem branco europeu não é representado apenas em uma reconfiguração artística mas também está presente na militância LGBT cotidiana e enquanto pessoas pretas não-heterossexuais, precisamos reconhecer a problemática racial nesses espaços para a partir disso construir espaços para nós, espaços que questões raciais possam ser realmente consideradas e nossa existência não seja só mais uma invisibilidade disfarçada de recorte racial.

  • Gabriel Oliveira Quadros — Estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
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