homem sozinho e sem nome

Eu fiz um personagem, mas eu não sei como nomeá-lo. Alheio a isto, escrevo para registrá-lo e, quem sabe, encontrar um nome. Ou o contrário, porque sempre antes recebemos um nome antes de nossa história. 
O rapaz que eu quero descrever tem seus lá 47 anos. Os cabelos pretos debandam e formam um buraco pequeno no topo de sua cabeça; nos lados, acinzentam-se os poucos fios que agora são raspados em degradê — é moda, né. Os óculos quadradinhos que mal lhe cabem o rosto dão a impressão de alargar e apontar o seu nariz. 
Vendedor, quase sempre com uma polo ou camisa social, e uma maleta a tiracolo. Fala com um tom de voz pouco puxado para o interior. Fala as vogais abErtAs, mas os erres são rápidos. Mexe as mãos no ar enquanto fala e sempre está querendo emplacar uma piada, uma tiradinha, um trocadilho com algo que alguém acabou de falar. E depois disso, ele força uma risadinha. Às vezes são boas mas a maioria não. Apesar disso, chega até ser bonitinho o jeito que ele tenta agradar.
Por ser um tanto solitário, refugia-se em grupos de discussão na internet. Futebol brasileiro, viagens baratas, produtos com desconto… ele sabe todas as manhas e caminhos pra pagar mais barato em qualquer coisa. “Mas agora é tudo muito raso, muita fofoca, panelinha…tem que babar muito ovo pra conseguir preço bom de verdade’, ele diz meio aborrecido enquanto volta a scrollar a tela do celular.
Tem uma rede social que ninguém conhece como app principal do seu celular. Ele passa horas scrollando pra baixo enquanto assiste a qualquer programa genérico passando na televisão. Se não tiver nada passando, qualquer jogo de futebol o salva do ócio da visão periférica. Gosta de ouvir os jogos também, mas na rádio. ‘É muito mais emocionante’, e enfatiza que qualquer joguinho fica bom dependendo da empolgação do narrador. Antes ele apostava, e aí passava horas discutindo escalação, falando sobre jogadores, classificação e resultados diversos. Virava noites vendo VTs de jogos da Série B e especulando tabelas imaginárias. Isso o distraiu por um bom tempo, mas acabou. Não aconteceu nada, ninguém proibiu: ele só enjoou. Decidiu que não valia a pena perder tanto tempo vendo futebol. Além disso, as pessoas começaram a acompanhar mais o campeonato europeu o que esvaziou os fóruns brasileiros e isso foi pouco a pouco mirrando suas expectativas para os jogos.
Desde então bebe sozinho. Fumava também, mas parou com cigarros industrializados. Agora só maconha - e moderadamente. Um beck por semana. Dependendo do domingo, vão se mais. Vinho de vez em quando, também, cerveja é quase uma latinha por dia, mas nada de destilados. Não possui grandes expectativas nem almeja grande coisas para o futuro, mas isso não o invalida de viver uma boa vida. Aliás, não seria essa ausência de expectativas que o permite viver uma boa vida? Afinal, vive, e vive com conforto. Aliás, esquecia-me de uma de suas características mais marcantes: o amor ao conforto.
É imprescindível senti-se bem: gaba-se sempre que pode. Cervejas caras, acessos exclusivos, objetos raros e caros estão de longe entre os seus presentes preferidos. Gosta muito de demonstrar a “potência” da televisão de led de 52 polegadas: muda as cores, aumenta o volume. Pergunta de vez em quando: ‘tá saindo som aí atrás?’, para lembrá-lo (ou lembrar-nos?) que além da televisão, há um home-theater 5.1 preenchendo a sala. ‘Parece cinema, olha isso’, diz enquanto os graves vibram. Tem vários canais de esporte: gosta de comparar as narrações, zapear entre os jogos simultâneos: mania herdada dos tempos de aposta. Vive bem, mas refém de uma realidade rotineira. Preso e feliz.

Enfim, por ora é só.
Ainda não consegui encontrar um nome. No entanto, não o acho de todo completo: falta-lhe sal. Mas ainda assim, aqui cunha-se um rascunho, um esboço, um esqueleto de observações e imaginário. 
Voltarei mais tarde para temperá-lo. Agora já passa das duas da madrugada e minha escrita já está arrastada.