Bom dia
Andando de ônibus, somos convidados a presenciar e/ou participar de diversas situações que me fazem entender a rede curitibana de transporte público de mesmo teor filosófico que era regente nas discussões nas ágoras na Grécia Antiga.
Recentemente, o que me gerou momentos de reflexão foi um senhor que, antes de sentar no banco do terminal para esperar o ônibus, deu bom dia e um sincero “Deus te abençoe”, mas ninguém respondeu. Imagino que todos tiveram o mesmo pensamento que eu: “deve estar louco”.
O interbairros II chegou e todos entraram e se posicionaram nos seus locais rotineiros. Como sempre, sentei no banco do lado da catraca que fica de frente para o resto do ônibus. Quando o motorista entrou no verdão para começarmos a viagem, aquele mesmo senhor disse “Deus te abençoe e bom trabalho”. Disse o mesmo para o cobrador. “Ele definitivamente é louco”, pensei.
Seguimos o resto do trajeto e toda vez que alguém entrava ou saia do ônibus, aquele senhor dava uma saudação ou uma despedida alegre e quando foi minha vez de sair, ele me deu a mão para apertar, não resisti e acabei apertando. “Tenha um bom dia e que Deus te abençoe”, ele disse e eu respondi timidamente olhando em seus olhos.
Depois que eu saí do ônibus, fiquei pensando sobre como estava imaginando que aquele senhor era maluco, mas depois de certo tempo digerindo isso cheguei a outro tipo de pensamento: será que não somos nós os errados? Vivemos nos isolando tanto e desconfiando tanto do outro que nos recusamos a aceitar uma benção divina saída da boca de um estranho. Somos tão pessimistas que, quando alguém nos dá um bom dia sorridente, achamos que ele está louco. Loucos somos nós!
Somos o problema, pois respondemos a ofensas na rua, mas não dizemos um “que assim seja” para um “Deus te abençoe”, pois nos permitimos a retrucar uma praga, mas nos recusamos a nos ver no reflexo dos olhos do outro. Recusamo-nos a dar humanidade aos outros.
O Brasil se diz majoritariamente cristão, mas onde está o amor ao próximo? O medo nos convida para o funeral da Boa-vizinhança que insiste em viver, mesmo que num estado quase que vegetativo. O medo nos bota num ostracismo tamanho que desconfiamos até de alguém que nos dá bom dia. Vivemos num momento violento, é claro, mas não justifica transformar nosso irmão em apenas parte da paisagem, um objeto que não podemos interagir. Não podemos entender o outro como um quadro cujos olhos não refletem minha imagem e cuja a boca não responderá o meu bom dia.