Textos que eu vou me arrepender de ter publicado
O PREFÁCIO DO LIVRO QUE EU NUNCA VOU PUBLICAR
A praça de alimentação do shopping Villa-Lobos possui em seu teto os dizeres: “não vim aprender, vim mostrar o que fiz”.
Certamente deve ser uma frase do Heitor, o cara da orquestra que deu nome a esse shopping tão chato e abafado, onde não se dá dois passos sem encontrar um conhecido. Se eu quisesse encontrar um conhecido eu marcava um horário, oras.
Só sei que a última coisa que o cara da orquestra imaginaria é que essa frase serviria para um estudante sem bagagem e sem classe. Eu não estou afim de aprender nada, vim mostrar o que fiz tendo quase nada. Já sei de tudo. De quase tudo, na verdade. Falta apenas o resto. Ou seja: falta tudo.
Mesmo assim, silêncio. Vou repetir: é que eu não vim aprender, vim mostrar o que todo o meu amor pelas minhas coisas inesquecíveis, pela cidade que eu vivo e pelos porres que eu tomei,
fizeram comigo.

RUA CASTRO ALVES, 51
Meus pais dançaram juntos pela última vez
na casa da esquina da Rua Urano com a
Rua Castro Alves e eu nem sabia que
poderia ser a última vez deles naquele lugar mais aconchegante que
abraço de vó em um sábado de
frio interminável da cidade de São Paulo,
que fica cada vez mais fria e interminável,
sem tempo pra se lembrar de quando tudo era bom e a saudade não existia,
igual a distância da Paulista entre a Consolação e o Paraíso,
que também não parecia ser tão grande.

LIBERDADE
Na Rua dos Estudantes ainda funciona um restaurante por quilo dirigido pela mesma família há gerações e com o mesmo cheiro de yakissoba desde quando aquele navio desembarcou na cidade de São Paulo trazendo uma galera do Japão (ou será que foi em Santos?).
Só sei que foi bem antes de quando a minha avó pediu meu avô em casamento pois ela achava que iria ficar pra titia mesmo tendo 27 anos e aí tiveram o caçula que é meu pai,
um romântico meio bobo (mas sobretudo romântico) que buscava minha avó pra almoçarmos aos domingos no Restaurante da Estudantes e a senhorinha dava um prejuízo mas pelo menos pegava a fila preferencial para tomarmos logo
a nossa raspadinha e todos éramos felizes nesses
almoços de domingo que nunca mais
vão acontecer.

DEVANEIOS (APAIXONADOS) DE QUINTA
Se meu pai tivesse concluído o curso de engenharia agrônoma e a minha mãe fosse mais ajuizada,
certamente eu seria muito mais bobão e não andaria nem de ônibus.
Você jamais olharia pra mim.
Ainda bem que deu tudo errado e você me notou, pois agora
eu caminho na Faria Lima desnorteado
pensando em você.
Em você e nos que jogam bitucas de cigarro no chão de Pinheiros,
uma atitude que é perfeitamente compatível com o Presidente da República,
um sem educação.
Mas sobretudo em você.

DEDICATÓRIA
Pela manhã enquanto você passava por mim no corredor arborizado
eu tentava entender onde será que eu estive
em toda a minha vida
se não do seu lado ouvindo as melhores
do Caetano e brigando pra decidir
o que vamos pedir pra jantar
já que seu sorriso é lindo igual
a sua roupa meio amassada e essa cara
de sono de uma segunda-feira
de setembro.
Será que já falaram que você
parece uma crônica do Nelson Rodrigues
brasileira e imortal com esse seu sorriso
igual o dos nossos filhos correndo
pela casa já que eles serão hiperativos como
o pai mas certamente terão
bom senso igual aos olhos lindos da mãe?
Esses olhos lindos de quem
passa e não me olha e
não quer saber de olhar
fazendo com que eu desista do
casamento por força maior e dedique
esses versos ao meu
melhor amigo que é ninguém mais
ninguém menos do que o
meu café.

