Inferno 17 — Billy Wilder (1953)

Só de olhar pra filmografia de Billy Wilder, é possível ver como ele transitou entre os grandes gêneros do cinema de Hollywood. O judeu polonês que saiu da Europa fugindo do Holocausto dominou o cinema americano em um de seus períodos mais prolíficos, contando com 81 créditos como roteirista desde 1929 e 27 como diretor em seu nome no IMDb. Da incrível comédia de Quanto Mais Quente Melhor (1959), passando pelo drama investigativo de Testemunha de Acusação (1957), até chegar ao noir de um dos melhores filmes de todos os tempos, Crepúsculo dos Deuses (1950), Wilder é um diretor clássico e um mestre.

Mas poucas vezes ele usou tão bem os maiores gêneros do cinema americano em um só filme como em Inferno 17 (1953). Com toda a trama passada em um campo de concentração nazista, o filme conta a história de um grupo de prisioneiros que descobre um espião dentro de sua barraca depois da morte de dois amigos que tentavam escapar. As suspeitas de todo o grupo recaem sobre Sefton (William Holden), um cínico sargento americano famoso por trocar favores com os guardas e colecionar pequenos luxos em seu beliche.

Com uma trama dessas, esperava algum tipo de mistério ou um jogo de suspense entre os prisioneiros para encontrar o culpado, e foi exatamente o que encontrei. Só não esperava encontrar uma comédia de altíssimo nível e pedaços de um drama digno dos melhores retratos de guerra do cinema.

Soltei algumas risadas que confesso que não esperava soltar durante o filme. A comédia fica a cargo principalmente da dupla Shapiro (Harvey Lembeck) e Animal (Robert Strauss), que buscam um refúgio daquela situação nas risadas e atuam em uma dinâmica que beira as sugestões da homossexualidade. A relação deles com o sargento responsável pela cabana (Sig Ruman) também é uma das principais fontes de risada, pois os prisioneiros se aproveitam da simplicidade — queria dizer idiotice porque é exatamente como Billy Wilder representa quase todos os alemães, inclusive o coronel personagem de Otto Preminger — dele para algumas pegadinhas ou brincadeiras para tornar a estadia menos infernal.

Além disso, momentos tão singelos como uma celebração de Natal longe da família ajudam a nos aproximar daqueles soldados capturados, que dançam uns com os outros e tentam criar um clima familiar para a precária habitação onde destinados a viver. A cumplicidade dos prisioneiros também transparece desde o primeiro minuto, com todo o apoio dado aos dois homens que tentam fugir, e mais ainda quando eles descobrem o trágico destino.

É a partir deste trágico destino que o jogo de suspense começa. Durante quase 1 hora e meia de filme, vemos o grupo apontando os dedos para Sefton e vamos quase nos convencendo de que ele é o informante alemão, mas anos de cinema nos fazem desconfiar de qualquer resposta simples, por isso Wilder nos deixa atentos a cada movimentação na cabana para descobrir algo a mais, principalmente quando o sargento entra lá e acompanhamos a sua troca de mensagens com o espião.

O momento de revelação do culpado é um lance primoroso digno do melhor cinema clássico de Hollywood. É uma sequência que merece uma análise quadro a quadro de toda a arquitetura da cena e de toda a movimentação dos personagens, no melhor estilo “show, don’t tell”. Coisa que só alguém com o domínio de Wilder poderia fazer.

Stalag 17 (1953)

  • Direção: Billy Wilder
  • Produção: Billy Wilder
  • Roteiro: Billy Wilder, Edwin Blum
  • Fotografia: Ernest Laszlo
  • Duração: 120 minutos
  • Elenco: William Holden, Don Taylor, Otto Preminger, Harvey Lembeck, Robert Strauss
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