Nas mãos de Deus e da Família

É notório que a sessão da Câmara dos Deputados de domingo, em votação para prosseguimento do processo de impeachment de Dilma Rousseff, escancarou o nível de nossos parlamentares. Os comentários mais compartilhados e debatidos no dia seguinte foram, em círculos pró e contra o processo, em relação às razões dos Deputados para seu voto ou então em relação ao comportamento de nossos representantes em matéria tão séria.

Votos pela família, por deus, pelos corretores de seguro, pela neta que fazia aniversário, pela paz em Jerusalém, pelo fim da corrupção (esse o mais cômico de todos, devo confessar) e os comentários criminosos enaltecendo torturadores e militares da ditadura eram bradados nos poucos segundos de fama que eram garantidos aos Deputados. Outros comentários da internet criticavam a pronúncia, a concordância verbal e erros de português cometidos. Houve ainda quem criticasse as escolhas de roupa ou quem estivesse mais interessado no funcionário desconhecido que ficava ao lado do microfone, auxiliando na votação. Quem mencionasse indiretamente o Diabo. E, é claro, o assunto do cuspe em pleno Congresso Nacional. As pedaladas fiscais, questão principal do processo de impedimento, foram mencionadas 16 vezes, segundo levantamento do Aos Fatos.

Uma mídia e um povo que normalmente dão pouca atenção a seu Legislativo, neste domingo, se encontraram com seus representantes. É possível haver gente que nem se lembre de quem votou na última eleição, mas a vitrine do domingo pode muito bem ter aberto um precedente para prestarmos mais atenção ao Legislativo e aos Deputados eleitos a cada quatro anos — ou não, é possível, mas não saudável, também esquecermos rapidamente todo o processo.

A verdade é que, por mais que não nos sintamos responsáveis ou representados, esses parlamentares nos representam. Foram colocados lá por milhares de votos, nossos votos, de brasileiros e brasileiras. Isso talvez seja o mais assustador.

E se não nos sentimos diretamente representados por esses votos e seu despreparo fica tão claro em momentos importantes como estes, por que eles estão lá? Muito provavelmente pelo poder econômico que financia suas campanhas e suas aparições na mídia, como coloca Cileide Alves.

E se deixamos em suas mãos a escolha pela continuidade ou não de um governo, por que não deixarmos também a escolha do próprio governante? Isso, afinal, é o que querem os proponentes e defensores do parlamentarismo. Assunto que foi trazido à tona mais de uma vez por políticos nesses últimos tempos de crise e ainda mais quando em comparação com a resolução da crise na Islândia, com a renúncia do primeiro-ministro.

Em sistemas de governo parlamentaristas, o Legislativo escolhido por mandato popular forma o Executivo, definindo o chefe de governo a partir da maioria estabelecida por um partido, e a quem podem dar um voto de desconfiança em momentos de crise de popularidade. Um processo muito menos traumático do que uma votação de impedimento de presidentes, com certeza. Com base neste momento específico de nossa vida democrática, os defensores do parlamentarismo avançam, propondo uma saída à crise política fora do presidencialismo.

Méritos e problemas dos sistemas de governo à parte — que merecem ser discutidos bastante, mas não aqui e não por mim — fico pensando em um parlamentarismo ao olhar para nosso Parlamento.

Nosso chefe de governo seria então escolhido em nome da família “quadrangular” de deputados, em nome principalmente de seu deus, em nome de um torturador da ditadura ou até da oposição armada à ela — para não me ater somente aos votos favoráveis ao impedimento.

Será que os 200 milhões de brasileiros conseguiriam olhar para nosso chefe de governo, que com base na votação de domingo seria um homem, branco, heterossexual, católico, rico e com cerca de 50 anos, e se sentiriam também representados?

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