Tudo sob minha mãe

Era 1999, eu acho, minha mãe me puxava da cadeira para dançar “É o Tchan” na virada do ano. Madrugada a dentro, colado em seu quadril, suei de alegria. Esse é o primeiro ano novo de que tenho lembrança.

Minha infância foi assim, um poço de felicidade. Filho único e tardio de minha mãe, que pariu aos 32, fui alvo de todo o seu afeto. É certo que a infância é uma fase decisiva de nossas vidas. Nela tudo que acontece tem um grande potencial de influência sobre o que nós seremos, e da mesma maneira que traumas podem se formar, também é lá que se constroem as colunas do que será nossa personalidade no futuro.

Num dia de sol ameno em 2001, já entardecia quando, sentado na cozinha, vi três de meus primos chegarem e se espremerem no pequeno sofá da sala para conversarem com minha mãe. Encabulados pediam a ela que lhes emprestasse o talão de cheques para que comprassem um fusca. Minha mãe foi firme na conversa, mas os três garotões com 18 anos recém completos saíram com o sorriso no rosto. Lembro o brilho no olho dela ao ver os sobrinhos com o peito cheio, falando do carro como se já fosse deles. De tudo o que há nela que percebo em mim, esse é o traço mais forte.

Se é verdade que a infância é decisiva, o que pensar do momento anterior? Por meses a fio somo nutridos juntos, compartilhamos o mesmo espaço, sentimos as mesmas emoções, temos o nosso umbigo atado por um cordão. Somos, desde o início, um pedaço de nossa mãe.

Talvez a vida seja o processo longo e dolorido desse pedaço querer tornar-se parte inteira.

O confortável seio materno tem que ser deixado para trás dia após dia. Nascemos, desmamamos, vamos à escola, vamos ao trabalho, saímos de casa. Para construir algo que nos seja próprio, nos apartamos de um núcleo seguro e nos lançarmos em um mundo de possibilidades e incertezas. Mas a independência cobra um preço caro. E na estação do metrô hesitamos em embarcar no trem ou ficar nos braços de quem até ali nos acompanhou.

Minha redenção para esse angustiante dilema é ver o traço dela cortando o meu “t” quando escrevo. Ouvir seu timbre no som da minha risada ecoando no banheiro. Perceber no meu gingado o seu jeito de andar de madrugada. Olhar no espelho e ver no meu rosto, tão semelhante ao seu, o olhar preocupado de quando eu chegava tarde, e ver minhas maçãs do rosto corarem como as suas quando levantava mais cedo para preparar o meu café.

Muito além disso, sei que os sonhos que posso sonhar, são fruto da infância que tive, do afeto que recebi e da certeza de um amor que só podia imaginar.

E por isso mãe, quero festejar-te, fazer cocegas em suas costelas, viajar para salvador e te ver me ensinar a tirar a carne de um coco maduro.

Quero me alegrar por saber que tudo isso que há na senhora, também mora em mim. E que é sob a sua luz que eu enxergo a vida, e assim, vejo tudo sob o seu prisma, tudo sob minha mãe.

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