Enquanto o mundo girava e eu olhava pro lado um pássaro que voava acima de meu cérebro caiu no chão bem na minha frente. Passei por cima e nem me dei conta de que o sangue que escorria era da mesma cor que o meu. Enquanto eu arrumava a cama e pensava em comer alguma coisa a vizinha abria a janela e tentava sorrir pra mim mas eu a vendo não a enxergava. Durante a meia hora que passei sentado na sala de espera do dentista tocou a mesma musica 3 vezes e a secretária escutava mas não ouvia. Entre um passo e outro que dei na avenida esses dias me ocorreu uma lembrança que no próximo passo já esqueci. Hoje eu tava pensando em você, que queria te ver, te dizer “oi ta bom?” mas o pensamento de que haveria espera pela resposta me fez desistir de te chamar. Ontem eu tava pedindo um lanche ali na padaria e não entendi nada do que a mulher disse e só concordei. Comi um pacote de bala em uma hora. Esses dias eu parei pra pensar na minha vida e entendi o sentido da palavra sensibilidade. As vezes eu penso que queria ter outro nome, ser outra pessoa, desconhecer-me. Hoje eu passei o dia sem fazer nada olhando o quadro de um homem desfigurado laranja e preto que fica na parede da sala da minha mãe. Ouvi perguntas mas não respondi. Dei boa noite e não fui dormir.