Eu preciso desacelerar.
"Pra acalmar o coração, lá o mundo tem razão, terra de heróis, lares de mãe, paraíso se mudou para lá..."
Das melhores lembranças que eu tenho do meu 3° ano, ouvir Marisa Monte na companhia do meu pai enquanto íamos juntos pra escola certamente é uma das que eu mais gosto.
E não sei quantas vezes já ouvi "Vilarejo" na minha vida, sempre foi uma música que eu gostasse bastante.
Entretanto, só descobri a diferença entre ouvir e escutar essa música atualmente.
Dia desses uma das minhas melhores amigas foi de BH à Bela Vista comigo. A minha cidade é sim o retrato de toda a música citada.
"Lá o tempo espera, lá é primavera, portas e janelas estão sempre abertas pra sorte entrar."
Minha amiga me mostrou coisas que eu nunca tinha parado pra reparar mesmo morando ali por 18 anos: a qualidade do ar que é extremamente mais puro, a segurança que se existe num lugar que acaba sendo inevitavelmente monótono, a tranquilidade de ouvir pássaros cantando e como, de fato, o tempo ali passa mais devagar.
O tempo espera a ponto de não ter um semáforo na cidade e o sino da Igreja soar a cada meia hora para anunciar a população que, mesmo que não pareça, o tempo está passando.
Depois que eu me mudei pra Belo Horizonte, tenho levado uma vida completamente agitada, ocupando cada espaço de uma vida cheia de vazios.
A correria de pegar ônibus, assistir aulas, fazer trabalhos, sair com os amigos, trabalhar, ser sociável, marcar presença em redes sociais, arrumar espaço pra um romance, ler livros besterois e se mostrar sempre feliz vem me consumindo cada vez mais.
O resultado disso nem sempre é dos melhores, mudar pra cidade grande me fez também mais ansioso. A busca pela aceitação, de ser bom, de ser produtivo e de estar bem o tempo todo me acompanha a ponto de não conseguir ficar sem fazer nada por um tempo sem a companhia da sensação de estar deixando algo de lado.
Assumo que em certo ponto gosto dessa correria, me faz me sentir vivo, jovem, enérgico.
Mas compreendo também que preciso desacelerar. Sei que voltar pro meu vilarejo já não é mais a solução, eu não pertenço mais àquele lugar.
Ali é sim o lugar que sempre vai arejar um vento bom e onde acalma o meu coração.
Mas, pra mim, é em BH onde o meu mundo tem razão.
Toda vez que volto pra casa eu ainda coloco minha escova de dentes na gaveta do banheiro, mas é só pra eu me sentir um pouquinho ali ainda. É difícil aceitar que o vilarejo já não é mais a minha casa, mas será, pra sempre, o meu lar, pra onde eu devo correr quando eu precisar desacelerar.
