AS FAKE NEWS E A CAVERNA DE PLATÃO: A CRÍTICA DE HANNAH ARENDT À SOLUÇÃO PLATÔNICA
Segundo Platão (427a.c — 347a.c) existem dois mundos distintos, o mundo sensível, lugar das opiniões (doxai), das percepções dos sentidos e afastado de real valor ontológico, onde o ser humano em geral vive a maior parte do tempo e o mundo das ideias, horizonte metafísico de compreensão da realidade onde se encontra o saber verdadeiro (epistemè), que só é alcançado pela contemplação racional e apenas por aqueles que se abrem para o exercício do pensamento, para além das aparências das percepções sensíveis e opiniões sem fundamento. Para explicar esta teoria, Platão faz uso da Alegoria da Caverna, criada com uma intenção filosofico-pedagógica. Nesta narrativa o filósofo conta que haveria homens nascidos e criados no interior de uma caverna onde se encontravam acorrentados e impossibilitados de sair ou mesmo de virar o rosto no sentido contrário ao do fundo da caverna, a única visão que eles tinham era de sombras projetadas em suas paredes (menção ao mundo sensível). Dado momento, um destes presos liberta-se e foge até a luz, entrando em contato com o mundo exterior (menção ao mundo das ideias) este ex-prisioneiro fica encantado com o que vê, ao retornar para a caverna ele conta aos demais prisioneiros a sua descoberta, porém ele é ridicularizado ao insistir na tentativa de levar alguém para o mundo exterior. Diante da situação em que se encontravam, os prisioneiros tinham dificuldade para conseguir ver outra coisa além das sombras:
“Sócrates: Imaginemos que existam pessoas morando numa caverna. Pela entrada dessa caverna entra a luz vinda de uma fogueira situada sobre uma pequena elevação que existe na frente dela. Os seus habitantes estão lá dentro desde a infância, algemados por correntes nas pernas e no pescoço, de modo que não conseguem mover-se nem olhar para trás, e só podem ver o que ocorre à sua frente. (…) Naquela situação, você acha que os habitantes da caverna, a respeito de si mesmos e dos outros, consigam ver outra coisa além das sombras que o fogo projeta na parede ao fundo da caverna?”. (PLATÃO. A República [adaptação de Marcelo Perine]. São Paulo: Editora Scipione, 2002. p. 83).
Assim como na alegoria da caverna, grande parte das pessoas na sociedade vivem em “cavernas modernas”, prisioneiros de sua própria ignorância reproduzindo e consumindo informações de fontes duvidosas e conteúdos supérfluos de forma desenfreada e sem medir os riscos dessas atitudes. Grande parte deste conteúdo não é verídico, trata-se de material inventado, muitas vezes criado para ser compartilhado facilmente e para manipular opiniões e satisfazer quem o consome. As notícias falsas (Fake News) são mentiras, desinformação e boatos compartilhados de forma desmedida e inconsequente em diversos meios de comunicação, mas que vem sendo especialmente presentes nas redes sociais, graças ao grande poder, velocidade e facilidade de espalhar informação na internet. As fake news são bem diferentes de sátiras e paródias, ao contrário destas, elas são criadas para enganar, com fins de ganhos financeiros e/ou manipulação de massas, principalmente com um viés político, por isso sempre possuem manchetes super chamativas e atraentes, instigando qualquer um a clicar e acessar a notícia, e na maioria das vezes os que leem não buscam e nem pesquisam por mais informações para confirmar se é uma noticia verdadeira. O termo Fake News popularizou-se após as eleições presidenciais nos Estados Unidos, em 2016, onde levantaram-se diversas pesquisas e investigações mostrando que elas haviam influenciado nos votos, fazendo com que Donald Trump saísse vitorioso. Segundo o estudo Social Media and Fake News in the 2016 Election, foram 115 o número de fake news criadas e publicadas no Facebook em prol da eleição do candidato Donald Trump, sendo compartilhadas cerca de 30 milhões de vezes. Sua opositora Hillary Clinton contou com 41 notícias falsas publicadas também no Facebook a favor de sua eleição, tendo cerca de 7,6 milhões de compartilhamentos. (ALLCOTT, 2017, p.13) Este caso mostra como a relevância das fake news aumentou em uma realidade da política da pós-verdade, onde os fatos são ignorados e aparentar ser verdade é mais importante que a própria verdade.
“A expressão pós-verdade, despontou para a fama graças ao Dicionário Oxford, editado pela universidade britânica, que anualmente elege uma palavra de maior destaque na língua inglesa, apontando um crescimento de 2.000% do uso do termo em 2017. O Google registra mais de 20,2 milhões de citações em inglês, 11 milhões em espanhol e 9 milhões em português, uma ideia de seu sucesso.” (PRIOLLI, Gabriel. A era da pós-verdade.)
Além de influenciar no campo da política, as fake news também contribuem com crimes, estimulando a violência e a justiça com as próprias mãos, apenas para conseguir mais alcance na falsa notícia chegam a julgar uma pessoa por um crime que ela nunca cometeu. Aqui no Brasil tivemos o caso de uma dona de casa que foi assassinada após viralizar uma notícia falsa nas redes sociais de que ela sequestraria crianças para realizar rituais de magia negra. A falta de informação e a falta de investigação dos fatos levou uma inocente a ser morta, e ainda que fosse culpada, não deveria ter sido julgada desta maneira. Outro exemplo que temos é em época de período eleitoral, que vemos muito pelas redes sociais notícias falsas, montagens de fotos relacionadas a candidatos e todo material falso e sensacionalista pensado para influenciar no voto, este bombardeio constante de informações, manchetes sensacionalistas e fotos com frases fora de contexto prejudicam a cobertura profissional da imprensa e complicam ainda mais para que os jornalistas possam cobrir notícias significativas, além de fortalecer as bolhas sociais, fazendo com que um indivíduo com uma determinada forma de pensar e que tenha em suas redes sociais como principal (senão único) meio de informação, se agarre nessas falsas matérias, se tornando intolerante com outras visões de mundo e consumindo apenas material que defenda seus ideais, sem se importar com a sua veracidade.
“Sabemos que a notícia circula em torno da ideia de verdade. Não necessariamente a verdade utópica do jornalismo totalmente imparcial, desprovido de interesses, mas aquela que dá o sentido à atividade jornalística, como fonte de informação. Nesse contexto deve consistir em uma postura a partir da qual as empresas jornalísticas devem pautar a sua atuação, sendo as primeiras a não produzir ou veicular as “fake news”, sobretudo as democraticamente tendenciosas, as quais impedem escolhas totalmente livres e têm elevada propensão de polarizar ainda mais uma sociedade fragmentada, fomentando o discurso de ódio.’’ (BALEM, 2017, p. 3)
Platão, após a morte de Sócrates, tentava impor seu plano de uma cidade ideal pois começou a duvidar da democracia e a pensar política como uma comunidade que “consiste em governantes e governados” (ARENDT, 2009a, p. 234). Platão desenvolveu um paralelo entre o homem e a cidade, catalogou três partes para a alma humana, a apetitiva, a irascível e a racional, e dividiu a cidade em três classes essenciais, a dos comerciantes, dos guerreiros e dos governantes (Filósofos). Platão argumenta que a pólis, é como uma ampliação do ser humano, e que assim como deve haver uma harmonia entre as diferentes faculdades da alma, deve haver também entre as diferentes classes da cidade, essa ordenação se dá quando tanto o indivíduo quanto o estado elegem seus aspectos racionais como orientadores de suas ações. E quando existe esta harmonia, nasce a saúde na alma e também na pólis, a qual se reflete na justiça (questão inicial do livro I, diálogo A República). Platão defendia a aristocracia intelectual como forma de governo (Aristo = melhores + cracia = governo), pensando que para que uma cidade pudesse ser justa conforme o seu ideal de cidade justa, esta deveria ser governada por reis-filósofos, os quais segundo Platão seriam capazes de contemplar a verdadeira realidade ideal, sendo capazes de realizar compreensões e juízos corretos, uma vez que teriam acesso à verdadeira ideia do Bem e da Justiça. Segundo Hannah Arendt, Platão, ao pensar política desta forma, não faria política a partir da prática de uma dimensão da vida ativa humana, que diz respeito ao âmbito da ação (práxis), que é irreversível e imprevisível, a ação sempre estabelece relações, e tem portanto a tendência inerente de violar todos os limites e transpor todas as fronteiras, onde os resultados são inesperados e não se tem o controle completo dos desdobramentos e consequências da ação, mas aplicaria as ideias ao mundo sensível dos seres humanos e da política “como o artesão aplica suas normas e padrões; ‘faz’ sua cidade como o escultor faz uma estátua” (ARENDT, 2009a, p. 236- 239). Nesse contexto, pode se dizer que Platão pensaria a política a partir do critério da fabricação (poiésis), onde ele apenas imporia sua própria opinião às múltiplas opiniões de todos da polis, negando a pluralidade humana. Para pensar a política e tentar resolver o crescimento das Fake News e das cavernas modernas, deve-se levar em conta o diálogo em vista do esclarecimento, e não se praticar a forma autoritária que desdenha o valor da pluralidade humana, como Platão pretendia. Da mesma forma que a facilidade de compartilhar informação na internet é usada para a criação de notícias falsas e manipulação de massas, ela pode ser usada contra isto, são inúmeras as ferramentas de pesquisa de texto, imagens e fontes disponíveis na internet, existem portais autônomos que trabalham apenas com checagens de notícias que viralizam para constatar a veracidade dos fatos e portais de notícias que já contam com páginas específicas para este serviço também, portanto apresentar os fatos é o caminho para sair da caverna e chegar até a verdade e a melhor forma de agir ao se deparar com uma mentira.
Referências bibliográficas
ALLCOTT, Hunt; GENTZKOW, Matthew. Social Media and Fake news in the 2016 Election. 2017.
ARENDT, H. A condição humana. Trad. Roberto Raposo. Rio de janeiro: Forense Universitária, 2009a.
BALEM, Isadora F. O IMPACTO DAS FAKENEWS E O FOMENTO DOS DISCURSOS DE ÓDIO NA SOCIEDADE EM REDE: A CONTRIBUIÇÃO DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO NA CONSOLIDAÇÃO DEMOCRÁTICA. UFSM
Universidade Federal de Santa Maria, 2017 Disponível em: <http://coral.ufsm.br/congressodireito/anais/2017/1-12.pdf>
DUARTE, A. O pensamento à sombra da ruptura: política e filosofia em Hannah Arendt. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
Mulher espancada após boatos em rede social morre em Guarujá, SP Disponível em: <http://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2014/05/mulher-espancada-apos-boatos-em-rede-social-morre-em-guaruja-sp.html>
O impacto das fake news nas eleições presidenciais. Disponível em: <http://cnseg.org.br/cnseg/servicos-apoio/noticias/o-impacto-das-fake-news-nas-eleicoes-presidenciais.html>
PLATÃO. A República [adaptação de Marcelo Perine]. São Paulo: Editora Scipione, 2002
PRIOLLI, Gabriel. A era da pós verdade. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/revista/933/a-era-da-pos-verdade>
VICENTE, José. Hannah Arendt: Platão e a negação da pluralidade humana. Kínesis, vol. IV, n. 7, 2012