A mentira que se paga
Vendem-se etiquetas: sustentabilidade, inovação, eficiência, brasilidade, e a pior delas, inclusão social. Cada palavra se torna, vazia nela mesma, conteúdo vendável, lixo que se agencia à grana. Como é mesmo aquela coisa que chamam por aí? Precisamos incluir esse conceito. É o que se diz. Na real, é o que se paga. Longe de uma crítica ao capital, à ânsia ou ao desejo de compra, o que instiga este texto é a mentira. Mentira mesmo, de cara suja, borrada, que não faz diferença alguma, colocando-se o nome da moda, está tudo certo.
A arquitetura pré-fabricada tem suas funcionalidades bastante relevantes, como a praticidade num pequeno espaço, a síntese hermética de um desenho bem-feito ou um móvel bem resolvido. Mas não devemos ser mentirosos. Não devemos dizer que nos importamos com aquele que não tem condições de pagar por ela, de chamá-la de "inclusiva". O preço que se paga são palavras jogadas na lata do lixo. E jogar palavras no lixo, convenhamos, não é bacana.
Fizeram isso, tempos atrás, com a publicidade. Era uma palavra quase poética, tinha um significado de alteridade interessante: algo público. Mas, pelo outro lado, o que se viu foi uma publicidade que em nada tem a ver com o público. No pior sentido, corroeram a palavra de tal maneira que hoje é impossível desassociar publicidade de venda. Não que seja um problema em si, mas o que se reivindica aqui é que se tenha menos cara-de-pau, que se produza menos blablablás falaciosos. Ou seja, jogue a real: é arquitetura para quem tem dinheiro e ponto.
Num comercial de um evento de decoração, colocar a ideia de "inclusão social" soa ridículo. Dizer que um evento tem interesse em inclusão social, onde a maioria daqueles que patrocinam só tem olhos para quem pode pagar mais pelas suas luxuosas obras arquitetônicas, soa equivocadíssimo. É só assumir: é evento para quem tem grana e ponto. Se está a fim de pensar inclusão social, perdoem-me, mas não será esse tipo de evento em que se encontrará isso. Claro que subversões podem existir, fissuras, quebras internas, mas só não me venham dizer que é o propósito do evento. Aí não.