Twin Peaks e O Despertar da Força: Nostalgia ou reprodução do passado?

O passado que volta, independe do querer

A cultura popular — a moda, a música, o cinema e a televisão — é regida em ciclos. No cinema norte-americano isso se faz extremamente visível: o otimismo de 1960, a subversão e o pessimismo de 70, as aventuras nos 80 e o retorno do otimismo na primeira metade dos 90 (até a crítica do status quo na segunda metade com Clube da Luta, Matrix e Beleza Americana, por exemplo). Na primeira década dos anos 2000, se viu uma explosão de remakes e thrillers; na década em que vivemos atualmente, o que rege a alta temporada são os filmes de super-herói, mas uma outra tendência se faz cada vez mais aparente: os revivals, as retomadas e continuações de franquias “clássicas”, de décadas passadas, com seus elencos originais.

Talvez o grande ponto de início dessa tendência possa ser encontrado nos trabalhos de Sylvester Stallone. Em 2006 voltou a ser Rocky Balboa em um filme que colocou em seu centro a idade avançada do protagonista. Em seguida, 2007 viu o lançamento de Duro de Matar 4.0, com um também envelhecido Bruce Willis; mais um ano depois e Stallone voltou a ser Rambo (mesmo ano de 2008 que viu o retorno de Harrison Ford ao papel de Indiana Jones, fantasia de poder masculina agora na pele de um homem da terceira idade). Foram três anos consecutivos de astros da ação oitentista voltando aos seus papeis. Como um Vingadores não intencional, esses quatro filmes culminaram, em espírito, com Os Mercenários, iniciativa do próprio Stallone, que veio em 2009 — uma produção que reuniu pela primeira vez os grandes nomes das franquias antigas e que gerou duas continuações. Mais do que uma reunião celebratória, o filme propunha-se a reproduzir a fórmula dos filmes de ação de outrora, adotando até mesmo pontos já ultrapassados em sua narrativa, em prol de imaginar-se no passado daquela época e ser consumido por pessoas que sentiam nostalgia por aquele espírito cultural já ultrapassado.

Com a virada da década, a tendência se afirmou. Franquias antigas foram relançadas, capitalizando no reconhecimento de marca. O que chama a atenção neste meandro é a dependência de algumas destas obras em recorrer aos seus astros originais. O péssimo Exterminador do Futuro: Genisys, de 2015, teve como principal chamariz e centro narrativo um Arnold Schwarzenegger de idade avançada interpretando o androide assassino de pele sintética (!). Até mesmo soft reboots como o recente Caça-Fantasmas convocou seus atores clássicos (ainda que para pequenas pontas, em personagens diferentes dos originais).

Talvez nenhuma franquia seja mais exemplar nesse sentido que Star Wars, que usou o elenco da trilogia original como capital simbólico para o começo de uma nova trilogia, no sentido de tranquilizar seus fãs após o retumbante fracasso das prequelas. A participação e retorno dos personagens clássicos foi festejada, e sua participação em O Despertar da Força foi interessante: além do óbvio avanço na idade dos atores e de mudanças pouco significativas, estes personagens nada mudaram. Harrison Ford continua o mesmo personagem ainda que seu Han Solo tenha se separado de Princesa Leia. Suas roupas são semelhantes e seu comportamento cínico não mudou. Quando entra em frame, está com Chewbacca a seu lado — e ambos anunciam, para o delírio dos fanboys, que estão em casa. O próprio Harrison Ford, tão avesso à suas grandes personagens, retornará a um velho papel esse ano na sequencia de Blade Runner.

Para um filme existir e ser popular, necessita-se de um contexto que justifique sua existência. Se faz necessária a presença de elementos do filme que ressoem com a vida real ou com as experiências do público. Nos anos 80, a Guerra Fria e os governos conservadores dos EUA justificavam o perfil do filme de ação e do heroi de ação musculoso e armado até os dentes; quando Star Wars foi lançado originalmente, não havia nada semelhante na história do cinema em termos visuais. De fato, Star Wars hoje em dia é uma franquia com fãs apaixonados, mas o contexto é completamente diferente: O Despertar da Força não foi lançado em um contexto que se resume apenas à saturação de propriedades intelectuais semelhantes, mas em um mercado saturado pela própria marca (e sim, é uma marca) Star Wars, satirizada e reproduzida à exaustão.

A nostalgia, parece, entra em jogo aí: para suprir a carência de um contexto histórico e permitir que este seja deslocado, e para que uma obra não se sustente apenas no carinho do público por filmes que há muito já existem e são vistos.

Mas que nostalgia é essa?


Twin Peaks 2017: o passado que não volta, independente do querer

Depois dos retornos de Arquivo X, Gilmore Girls, Full House e outras séries (que confesso não ter assistido), 2017 viu o retorno de Twin Peaks em um evento limitado em 18 episódios. Quase todo o elenco original retornou, associado à um elenco de estreantes e “novos nomes” da indústria.

Cabe aqui uma breve contextualização do que Twin Peaks representa — tida como a primeira série “dramática” dos Estados Unidos, progenitora dos atuais fenômenos da chamada era de ouro da televisão, a série teve um final precoce após a turbulenta produção de uma segunda temporada péssima. Apesar disso, suas qualidades e a associação com o consagrado criador David Lynch elevaram a série ao patamar de cânone. Homenageada em outras séries, filmes, músicas e games; literalmente copiada em outras mídias assim, Twin Peaks tem um imaginário de personagens, falas e situações — uma estética completa — instantaneamente reconhecíveis e de extrema celebração: “Damn good coffee”.

27 anos depois do último episódio, a série retorna agora…com uma estética completamente diferente. O tom kitsch dá lugar pra longas cenas de enquadramentos fixos; a trilha sonora jazzy dá lugar…ao silêncio e ao vazio. As falas clássicas não são repetidas por personagens que encaram a câmera. O carismático e verborrágico protagonista bom-moço, Dale Cooper, só se faz presente em corpo: hora interpreta o oposto completo do personagem clássico, no que o revival tem até agora como vilão; hora, interpreta uma criança em corpo adulto, murmurando palavras de outras pessoas e que sequer sabe ir ao banheiro. Das 7 horas exibidas até agora, talvez apenas 30 minutos mostrem os personagens clássicos — e na maioria das vezes, estão em silêncio catatônico.

Em determinado episódio, essa versão infantil de Dale Cooper bebe seu primeiro gole de café em 27 anos (25 na cronologia da obra). O espectador otimista tem um estalo: “É isso, é aí que ele voltará a ser ele mesmo, Cooper ama café”. O personagem apenas cospe o café fora ao ter a boca queimada.

Nesse sentido, o Twin Peaks de 2017 não capitaliza em nostalgia — ele cria esse sentimento, fazendo seu espectador sentir falta dos episódios antigos, da trilha sonora e da multiplicidade de tons, do protagonista. O tempo passou para a cidade de Twin Peaks como passou para a série Twin Peaks: os habitantes da cidade mudaram, deram lugar a coisas mais novas, e vivem em um contexto completamente diferente. É uma história nova, com elementos familiares e transformados, onde o esforço para recriar o passado mostrou-se, até agora, completamente inútil.


Nostalgia pode ser definida como saudades do passado, e um passado pode sobreviver no presente de inúmeras maneiras. O ponto de interesse aqui é buscar entender — ou ao menos expor — como grandes produções culturais estão trabalhando ou aproveitando-se deste conceito.

Star Wars — O Despertar da Força encontrou seus maiores críticos naqueles que apontaram as vastas semelhanças de sua trama com o filme original, coisa que é, fatalmente, verdade. O maior elemento de dissonância, portanto, se dá na figura do Han Solo de Harrison Ford. Está ali como alguém que tem o dever de “passar a chama” para uma geração mais nova, como muitos produtores decretaram. Mas sua presença é carrega de sentidos ambivalentes: ao mesmo tempo é um personagem que retorna e que carrega na sua face os sinais da passagem do tempo e da idade, mas opera exatamente como operava nos filmes antigos, servindo também como um símbolo de que o tempo não passou; um instrumento para que a produção milionária seja reconhecida por seus fãs como “Star Wars de verdade”. Efetivamente, Ford é um artefato histórico que cumpre a função de negar a passagem do tempo, deslocando o público para o contexto do primeiro Star Wars — mais uma vez citando os produtores, que inúmeras vezes argumentaram que O Despertar da Força foi feito para reproduzir, na nova geração, a sensação do público que viu Star Wars em 77. É semelhante ao que tenta fazer Os Mercenários. Não se trata de nostalgia ou saudades do passado, e sim na tentativa de recriar um passado e um efeito cultural.

Twin Peaks nesse sentido pode ser apontado como uma obra verdadeiramente nostálgica. O problema é que nostalgia normalmente é associada à uma sensação prazerosa — a sensação de compartilhamento de uma passado positivo, aliviando assim as ansiedades em relação ao futuro. Twin Peaks parece provocar uma sensação negativa. São saudades de algo bom, algo que nem sempre é bom de sentir. Mas não é, definitivamente, a tentativa de reprodução do passado — o que acarretaria na negação do presente.