Vai pra Casa, Cassini.

Há quase exatos vinte anos, você saía do seio da humanidade. Seu último contato direto com a vida, como seus criadores. Levada para além da abobada celeste, você se viu livre pra seguir a sua missão. 
 Você dançou tango com Vênus, com a Lua, voltou para nos dizer um último adeus e partiu em direção ao — até então — desconhecido. 
 Nos seus intrincados passos de dança orbitais, trocando de parceiros gravitacionais, você rebolou pelas caóticas e complexas forças que regem tudo o que está ao nosso redor. Foi tudo calculado, mas ver a fragilidade — ao mesmo tempo em que a precisão — de toda a sua viagem, hoje, é assustador.
 Em cada novo momento, você nos mandou seus postais. A primeira grande surpresa foi quando chegou no nosso grande protetor, Jupiter, um dos regentes de nossa orquestra orbital ao redor do Sol. O Deus dos Deuses, o planeta dos planetas. Com sua superfície sempre em constante mudança, agressiva e violenta, você nos deixou embasbacados pela primeira vez. Eram detalhes nunca antes vistos! A grande mancha nunca pareceu tão próxima. Tão detalhada. Tão assustadoramente acalentadora. Como um gigante gentil, em comparação com os milhares de pequenos — “pequenos” — vórtex ao redor dela. Como um pai parcimonioso que deixa suas crianças correrem livres pelo parque, enquanto lê seu jornal. Quase éra-nos possível esquecer os ventos de milhares de quilômetros que estão concentrados naquela instabilidade atmosférica na qual caberiam vários de nosso próprio planeta. Você quase nos enganou com a nossa própria realidade, deixando com que nossas abstrações tomassem conta dos fatos. Graças à beleza com que você olhou tudo aquilo.
 E aí você se despediu do seu maior parceiro de dança, em um encontro íntimo, ligeiro e intenso, do qual foi lançada a dezenas de milhares de quilômetros por hora em um estilingue cósmico rumo ao seu parceiro final.
 Depois disso, foram meses mandando apenas pequenas mensagens, ligando para dizer que estava tudo bem. Seus instrumentos, no entando, a pleno vapor, no hostil do vazio espacial.
 Até que você finalmente viu, ao longe, os primeiros detalhes daquilo que sempre almejamos, do objeto que, por sua estranheza, por suas peculiaridades, sempre foi alvo da curiosidade da nossa civilização. A jóia do Sistema Solar. E a cada nova foto a curiosidade só aumentava. Assim como a imagem crescia com a proximidade, crescia a nossa ânsia por desbravar o planeta que, de todos, mais mexeu com nossa imaginação.
 Vênus tem o seu efeito estufa agressivo, Marte pode ter os seus Marcianos. Jupiter pode até ser o maior de todos. Mas nenhum é como Saturno. Nenhum tinha os seus atributos, as suas belezas, os seus anéis. 
 Ah, os anéis. Foi a primeira coisa que chamou a atenção de Galileu. Durante séculos, físicos e matemáticos se debruçaram sobre seus cadernos tentando entender e justificar aquilo. Muitos já sabiam o que não eram, mas nenhum sabia exatamente o que eram. A definição dos telescópios já não era mais o suficiente, era preciso chegarmos lá. E você foi a escolhida. Você tinha um destino. E você estava chegando nele.

Mesmo tão longe, sempre com suas antenas apontadas pra nós.

E há treze anos você tem a sua existência — literalmente — ao redor deste gigante gasoso. Você dançou alegremente nos potenciais gravitacionais de Saturno, aventurou-se nos anéis, você ATRAVESSOU os anéis! Você viu coisas que jamais imaginaríamos que pudessem um dia ser vistas. Você descobriu coisas que jamais poderíamos sequer pensar que fossem verdade. Você conheceu Luas — deixou até herança em uma delas, Huygens, em Titã! E até este seu pequeno apêndice fez suas próprias descobertas e su própria história-, você descobriu luas, anéis, você descobriu até novos mares, além dos da Lua e da Terra. Você viu luas se formando, luas deixando de existir; você presenciou o cabo-de-guerra graviacional entre janus e epimetheus, em suas órbitas peculiares e impensadas — mas, em si mesmas, perfeitas. Você viu Enceladus gracejando, como um golfinho acompanhando um navio, cuspindo seus oceanos para o espaço sideral. Você viu as partículas desses oceanos se aglutinando em novos anéis. 
 Você viu coisas que um dia foram inimagináveis. Coisas absurdas. 
 Você fez a realidade parecer ficção. Você fez a realidade virar uma obra de arte resultante das forças da natureza. Você fez muita gente perder a respiração com suas fotos, com suas brincadeiras com suas câmeras, com suas descobertas, com todo e qualquer detalhe que você queria nos mostrar. Tudo era carregado de assombro. O assombro bom, que deixa sem fôlego, empalidece e faz brotar o mais natural e sincero dos sorrisos. O sorriso do deslumbre de algo maravilhoso, inefável, distante e, mesmo assim, agora, tão próximo.
 E agora você vai pra casa. Porquê aqui já não é mais a sua casa, não. A sua casa, agora, é Saturno. Depois de tanto tempo de sua amizade, não seria justo pedir para você voltar. Não depois de tudo o que você fez por nós. Não depois de todas as descobertas, alegrias e surpresas. Não. A sua casa, agora, é Saturno. Vai pra casa descansar, Cassini. 
 Obrigado por tudo.

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