A decadência do guerreiro em tempos de artilharia — por Dom Quixote

Bem hajam aqueles séculos benditos, que careceram da espantosa fúria desses endemoniados instrumentos da artilharia, a cujo inventor tenho para mim que o inferno lhe está dando o prêmio da sua invenção diabólica: pois permitiu que um braço infame e covarde tire a vida a qualquer cavaleiro valoroso, e que, sem saber como, nem por onde, em meio do brilho e coragem que acendem e animam os peitos valentes, chegue uma bala desalmada, disparada por quem talvez tenha fugido espantado, ante o resplendor que fez o fogo ao disparar a máquina maldita; e a bala corta e, num instante, põe termo aos pensamentos e à vida de quem merecia gozá-la por longos séculos. Assim, considerando isto, devo dizer que a mim me pesa, no íntimo da alma, ter adotado esta profissão de cavaleiro andante numa época tão detestável, como esta em que agora vivemos; porque, ainda que nenhum perigo me amedronte, estremeço ao pensar que talvez a pólvora e o estanho me não deem ocasião de me tornar famoso e conhecido pelo valor do meu braço e pela lâmina da minha espada, através de toda a terra descoberta. Porém, disponha o céu como lhe aprouver se levo a cabo o que pretendo, serei tanto mais estimado quanto me tenho exposto a perigos maiores que aqueles por que passaram os cavaleiros andantes dos passados séculos.

Dom Quixote, Cap. XXXVIII — Miguel de Cervantes