Crítica: A Terça Parte da Noite (Andrzej Zulawski,1971)

Sexta-Feira, dia 03 de Janeiro de 2012, foi a abertura do Ciclo de Cinema Polonês no Museu da Imagem e do Som de Campinas sob curadoria de Celso Zenaro Filho.
A abertura do ciclo se deu com o filme “A Terça Parte da Noite” (Trzecia Czesc Nocy) de Andrzej Zulawski, já causando impacto, típico das propostas do curador deste ciclo.

Muito do que me toca no filme, além do drama psicológico inerente da história, ambientada no pós-Guerra e o clima apocalíptico da Polônia (durante o filme são até recitados trechos do Apocalipse), é a questão da identidade.

O filme foi filmado em 1971 trazendo o odor fresco do pós-guerra, que é exalado no próprio ambiente em que a película foi rodada, já mostrando nas arquiteturas clássicas em ruínas e nas vielas sombrias e esfumaçadas, todo o sentimento sombrio daqueles tempos.

A Polônia, retomada sua independência após a Primeira Guerra Mundial, não dura muito e se vê novamente ocupada pelas duas maiores máquinas de Guerra da história moderna, a saber, o exército nazista alemão e o exército vermelho da URSS.

Assim como a identidade polonesa perdida pela dupla ocupação, os personagens se mostram fragmentados e divididos, como o país.

Imaginei que esse filme como a própria Polônia.

Tentarei não dar muitas informações sobre o filme em si, mas uma breve sinopse vai ajudar a ilustrar o que quero dizer.

A trama se foca em Michael, um jovem que presencia sua mãe, sua esposa e seu filho sendo mortos por um grupo de militares.
Ao fugir para a cidade ele encontra uma antiga casa, onde encontra uma mulher prestes a dar a luz, Martha, que é muito parecida com sua esposa (mesma atriz), e decide cuidar dela e de seu filho.
Para mantê-los, ele se torna um “alimentador de piolhos” no instituo que produz vacinas contra a febre tifoide. Ele decide também resgatar John, marido de Martha, que foi preso por engano pelos nazistas, que acharam que era Michael.

Sua história se repete e se confunde aos novos encontros.

Não se trata de um simples filme sobre ocupação, ele vai muito além disso. Ele retira todo o caráter documental e da observação de “quem está de fora” e traz toda aquele terror da guerra para o âmbito pessoal do personagem principal, o que leva a crer que realidade e delírio percorrem simultaneamente o mesmo espaço.

Um casamento de duas realidades terríveis, a subjetiva (da loucura) e a objetiva (da guerra).

Em suma, assistam.