Gertrud — Carl Th. Dreyer — Semelhanças e Oposições ao cinema de Bergman

*Texto que fiz em meados de Abril de 2011

Aproveitando o ciclo de filmes sobre Dreyer assisti hoje Gertrud no Museu da Imagem e do Som de Campinas.
Não vou me propor aqui analisar o filme, que é riquíssimo tanto na temática quanto na plasticidade.
Pretendo neste post pontuar algumas reflexões que surgiram em minha cabeça quando estava assistindo esse filme.

Vou começar apresentando o filme. Gertrud é um filme dinamarquês de 1964 dirigido pelo diretor Carl Dreyer, baseado em uma peça teatral de um dramaturgo famoso, e conta a história de uma esposa de um aristocrata, vive um tedioso casamento e mantém paralelamente um relacionamento extra-conjugal, acreditando que assim encontrará a fórmula do amor perfeito.

O filme é tecnicamente perfeito, se isso for possível. Cada cena é uma verdadeira aquarela cinematográfica, com maravilhosos jogos de luzes e uma simetria impecável dos objetos em cena, alias, pelo que conheci, Dreyer é mestre em montar cenários sublimes.

Este filme praticamente não há praticamente nenhum contracampo, é muito diferente dos outros filmes do Dreyer que vi, prova que o diretor não se prende apenas em uma fórmula.

A ideia de eliminar o contracampo facilita a ideia de compartilhamento de emoções que o filme trata.
As cenas são quase sempre compostas por 2 personagens que compartilham emoções. É tão importante ver a expressão de quem fala quanto de quem ouve ao mesmo tempo.
Geralmente, expressões faciais denotam vazio interior.

Por tratar de dramas pessoais, muitos compararam esse filme com os de Bergman.
Particulamente acho o contrário em certos pontos.
Apesar da semelhança de ambos os diretores (Bergman é claramente influenciado por Dreyer), este filme é quase todo discursivo, enquanto os de Bergman denotam um “grito silencioso”.

Não sei se estou me orientando muito pela “Trilogia do Silêncio” do Bergman, onde isso é mais evidente, e confesso que preciso rever dois filmes do diretor “Cenas de um Casamento” e “Saraband” (geralmente Gertrud é comparado com esse último).

Mas acho que a “presença ensurdecedora” do silêncio de Bergman não se revela nesse filme de Dreyer.

Em Gertrud, os personagens estão a todo tempo dialogando, verbalizando. Basicamente é um filme de diálogos. Na minha concepção é bem diferente (até oposta) da proposta dos personagens de Bergman, que sofrem em silêncio.

Para mim, uma bela prova que o cinema expressa oposição na semelhança.

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