Invocação do Mal 2 —Religião, romance, sustos e Elvis Presley

Quando Invocação do Mal foi lançado em 2013, a aceitação foi bastante positiva. No site Rotting Tomatoes, sua classificação estava bem acima da média: 86% de aceitação de crítica e público.

Não é por menos, James Wan fez um trabalho excelente: uma direção arrojada e um tratamento quase impecável dos clichés do gênero.

Se o filme não era inovador em nenhum aspecto, ele estava longe de ser um filme esquecível.

Veja crítica que eu fiz do primeiro filme.

Um ano depois veio o spin-off, Annabelle, dirigido por John R. Leonetti.

Diferente de Invocação do Mal, Annabelle foi um fiasco, tanto em público quanto pela crítica.

Tudo que Invocação do Mal havia acertado, como o trabalho proficiente de James Wan, um bom elenco e um bom desenvolvimento de personagens, Annabelle fez o contrário. O filme todo se sustenta apenas em “jump-scares” (sustos), uma estimulação barata do mecanismo cerebral involuntário de liberação de adrenalina e reflexos de fuga, coisa que qualquer um pode fazer.

Dois anos depois do lançamento de Annabelle, estreia nos cinemas Invocação do Mal 2 e, felizmente, vemos um bom material.

Continuações são um problema?

Pessoalmente, não gosto da ideia de continuações. Elas são, forçosamente, uma decisão muito mais comercial do que artística e isso compromete bastante a qualidade do produto final, deixando-o, geralmente, mais pasteurizado.

Mas também não sou totalmente fechado a elas, nas mãos certas elas podem funcionar.

Quando Wes Craven, em 1984, dirigiu o excelente A Hora do Pesadelo, os produtores e empresários da New Line Cinema, vendo o sucesso do filme, já pensaram logo em fazer continuações.

Embora nem todas fossem necessariamente ruins, nenhuma das continuações de A Hora do Pesadelo chegava perto do primeiro filme. Não por que eram continuações, mas por que não era Wes Craven dirigindo.

Depois de cinco filmes e cinco diretores diferentes, Wes Craven voltou para dirigir um filme da franquia em 1994 com O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger. Um filme que consegue ser tão bom ou melhor que o filme original.

Em Invocação do Mal 2 vemos algo semelhante: James Wan retorna na direção do filme trazendo consigo o mesmo elenco principal e os mesmos roteiristas. O resultado final é um material que é tão bom ou até melhor que o original.

O enredo

Família Hodgson

A história de Invocação do Mal 2 se passa sete anos após os eventos ocorridos no primeiro filme e também é baseado em eventos reais: o caso Enfield Poltergeist.

Registrado no final da década de 1970, esse foi um dos casos sobrenaturais mais testemunhados e documentados da história, que povoou o imaginário coletivo das pessoas por muito tempo, inclusive serviu de inspiração para o filme Poltergeist de 1982.

Enfield é um município da Grande Londres, Reino Unido. No subúrbio desse município vive Peggy Hodgson (no filme interpretada por Frances O’Connor), uma mãe solteira e divorciada de quatro filhos: Margareth (Lauren Esposito), de 13 anos; Janet (Madison Wolfe), de 11; Jhonny (Patrick McAuley), de 10, e Billy (Benjamin Haigh); de 7 anos.

Ela começa presenciar fenômenos estranhos pela casa, especialmente vindos do quarto dos filhos: barulhos, pancadas fortes sem explicações, portas batendo, cadeiras voando, lençóis (e pés) sendo puxados, sussurros, objetos se movendo e a inquietante sensação de uma presença estranha no local.

As manifestações inexplicáveis vão se intensificando e Peggy vai buscar ajuda dos vizinhos e da polícia, que acabam também presenciando esses fatos estranhos.

O caso ganha notoriedade e um parapsicólogo é chamado para registrar o que está acontecendo.

O casal Warren (interpretados por Patrick Wilson e Vera Farmiga), que estava prestes a se aposentar dessas atividades de investigação paranormal, é chamado por um padre que busca a opinião “profissional” deles para descobrir se o caso com a família de Enfield é real ou se é apenas uma encenação.

Se o caso for real, o padre encaminharia um pedido ao Vaticano para autorizar um exorcismo.

Vale lembrar que Ed Warren é o único demonologista não ordenado reconhecido pela Igreja Católica.

Análises técnicas

Uma das diferenças desse filme para o primeiro é que Invocação do Mal 2 investe num terror muito mais visual.

Aqui utiliza-se bastante efeitos visuais. O primeiro filme, nesse sentido, era muito mais modesto e sugestivo, enquanto nesse filme tudo é mais explícito e bem menos sutil.

Temos, por exemplo, a manifestação do mal em duas formas distintas e visualmente bastante impressionantes: uma freira de aspecto diabólico e um boneco feito em computação gráfica, “The Crooked Man”.

As características de direção de James Wan continuam. Um excelente uso de travelling, onde a câmera faz um verdadeiro balé, se aproximando e se afastando de objetos, ou rodopiando ao redor dos personagens, assumindo seu papel narrativo. Temos também a ausência de cortes em momentos cruciais, aumentando a sensação de perigo. Planos holandeses, quando a câmera distorce propositalmente a imagem, sugerindo a distorção da realidade, evocando espiritualidade ou loucura. Planos sequências precisos, para mostrar a geografia da casa. Iluminação em tons quentes, escuros e uma paleta um pouco beje. Transições de foco precisos.

Nada soa como firula ou tecnicismo barato. Tudo que James Wan faz contribui para o filme.

Ed e Lorraine Warren

Uma das grandes vantagens desse filme em relação o primeiro está no desenvolvimento dos protagonistas.

Os laços entre Ed e Lorraine Warren são muito melhor trabalhados nesse filme do que no primeiro. Existe uma grande ênfase na demonstração da importância conjugal e no amor entre os dois.

Uma das cenas mais bonitas é quando, em um certo momento, Ed Warren pega um violão e toca Can’t Help Falling In Love de Elvis Presley, enquanto troca olhares com Lorraine. É um momento musical único, que demonstra uma delicadeza ímpar, que não se vê muito em filmes do gênero. Em meio a um turbilhão de coisas assustadoras acontecendo, você vê um romance se manifestando de forma singela — um contraste que salta aos olhos.

Holofotes em Madison Wolfe

Apesar de Patrick Wilson e Vera Farmiga estarem mais uma vez excelentes em seus papeis de Ed e Lorraine Warren, a grande estrela do filme é, sem dúvidas, Madsion Wolfe, interpretando Janet.

A atriz-mirim se entrega tanto a personagem que chega a assustar. Algo próximo do que Linda Blair fez em O Exorcista.

A capacidade de imersão é influenciada pela capacidade de entrega dos atores e Madison faz isso muito bem.

Seu rosto é totalmente contorcido através de expressões de pavor e sofrimento totalmente convincentes . Uma atriz incrível provando, mais uma vez, que a escalação de um bom elenco ajuda bastante nos filmes do gênero.

Mensagem religiosa

Eu sempre digo que boa parte dos bons filmes de terror são como uma espécie de “catequese medieval”.

Invocação do Mal, como bom filme de terror, não é diferente disso.

Os roteiristas Carey e Chad Hayes, que trabalharam nos dois filmes, são dois cristãos convictos.

Como todo filme de possessão, o mal e o sobrenatural são tratados de forma séria: os demônios existem, eles se manifestam e podem ser expulsos pela autoridade divina; essa noção, em si mesma, já cumpre uma certa função catequética.

O diferencial aqui está na intencionalidade: Sim, o filme passa propositalmente uma mensagem religiosa.

Em uma entrevista dada a CBN, um site cristão norte-americano (não confundir com o site de notícias brasileiro), os irmãos Carey e Chad Hayes falam da mensagem religiosa inserida no filme.

Segundo eles, o sentido do filme se complementa sobre o entendimento respeitoso da fé (no caso, a fé católica de Ed e Lorraine Warren), do companheirismo, do amor conjugal, do amor familiar, do auto-sacrifício e da noção de dever que permeia a trama. Tudo isso é perceptível ao longo da história.

Carey Hayes termina a entrevista dizendo que o filme “fala mais sobre Deus do que sobre o demônio”.

Conclusão

Em meio a tantos filmes de terror apelativos, bobos ou que não oferecem nada além de sustos, Invocação do Mal 2 prova de que, mesmo não inovando muito no gênero, é possível fazer um filme de terror tecnicamente excelente, assustador e com mensagens belas e morais.