Relato: A Paixão de Joana D’Arc (1928) — Carl Dreyer

*Texto que fiz no dia 19/04/2011, depois que saí de uma sessão no MIS Campinas

A paixão de Joana D’Arc é um filme mudo francês de 1928 dirigido por Carl Theodor Dreyer.
Considerado o primeiro filme produzido sobre a heroína francesa Joana D’Arc, brilhantemente interpretada por Renée Jeanne Falconetti.
Este filme simplesmente está nas listas dos maiores filmes de todos os tempos para diversas revistas especializadas e renomadas do cinema, e não é pra menos.

Apesar da grande repercussão do filme, eu só fui assisti-lo hoje, aproveitando a “Semana do Diretor: Carl Theodor Dreyer” que está ocorrendo no MIS Campinas, com a curadoria da minha amiga Priscila Salomão.

Confesso que nunca fiquei tão impressionado com um filme no que se refere a composição de cenas desde que eu assisti O Ano Passado em Marienbad do diretor francês Alain Resnais.

Tudo é perfeitamente simétrico, organizado e bonito.

O que mais chama atenção no filme é que ele é composto quase que inteiramente de closes.

Toda a história, o drama humano, o heroísmo e a santidade de Joana D’Arc é contada através das expressões faciais.

É acima de tudo um filme de ator. E Renée Jeanne Falconetti sintetiza muitos discursos através dos seus olhos.

Essas expressões faciais trazem toda a carga poética do filme, e toda genialidade de Dreyer que impediu que seus atores usassem maquiagem de maneira que suas expressões faciais se sobressaíssem.

O filme detalha as últimas horas de vida de Joana e ocorre após ela ter sido capturada pelos ingleses, cobrindo a prisão, tortura, julgamento e execução da santa heroína.

É um filme que aborda as questões de poder, a questão da perseverança e da convicção pessoal, já inerentes na história de Joana D’Arc.

Este filme o conteúdo e a forma se casam de forma perfeita. A forma a serviço do conteúdo, o conteúdo a serviço da forma. E ambos trabalhados com maestria.

A fotografia, que foi um trabalho conjunto com o polonês Rudolph Maté, não se mostra apenas primorosa, do ponto de vista técnico, mas revelador de uma verdadeira “audácia fotográfica”, conforme escreveu o crítico André Bazi.

Só por curiosidade, o filme foi banido na Inglaterra, por mostrar cenas em que Joana é atormentada por soldados ingleses que lembravam graficamente a tortura de Cristo pelos romanos e seu negativo original dado como perdido durante décadas, até a fita master ser encontrada num sanatório para doentes mentais em Oslo, na Noruega, em 1981. Esta versão é hoje disponível em DVD.

A metáfora faz sentido, o martírio de Joana D’Arc se assemelha muito ao de Cristo, e os inquisidores se comparam claramente aos Romanos. Essa comparação também se revela no título, a “Paixão de Joana D’Arc”, clara alusão a “Paixão de Cristo”.

Resumindo, é simplesmente um dos melhores (se não o melhor) filmes que já vi. E isso porque ainda nem mencionei a trilha sonora. Fantástica! É melhor eu parar por aqui, assistam.

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