Sobre Brief Encounter (1945) e as Escolhas que Fazemos na Vida

*Texto que fiz para o blog In Vino Veritas

Brief Encounter é um filme britânico de 1945 dirigido por David Lean, o mesmo diretor de Lawrence of Arabia, Doctor Zhivago e The Bridge on the River Kwai, e roteirizado por Noël Coward. A história é centrada em Laura, uma mulher casa e com filhos que se apaixona por um outro homem, Alec, também casado e com filhos. Essa história é baseada numa peça escrita pelo próprio roteirista Noël Coward chamada Still Life.

O filme ganhou o Grande Prêmio do Festival de Cannes de 1946 — equivalente nos dias de hoje à Palma de Ouro — e é até hoje aclamado pela crítica. O filme é muito admirado pela sua fotografia em preto-e-branco e a atmosfera criada na estação de trem mas o tema do filme é o que é mais discutido, a questão do “amor proibido”. Muitos deduzem que a história desse filme, que é uma história de adultério, seja na verdade uma representação alegórica das experiências de Noël Coward, que era um homossexual. Coward foi incluído no “livro negro”, lista preparada pelos nazistas que incluía pessoas que deveriam ser presas e assassinadas após a conquista do Reino Unido.

Sendo ou não uma alegoria da sua condição o que torna esse filme um clássico é a maturidade que é trabalhada no tema do “amor proibido”. Temos aqui uma mulher divida entre o impulso de uma paixão, um romance novo, renovado, que faz ela sentir-se jovem (bem ao estilo Madame Bovary de Flaubert) e um casamento, com filhos, uma história toda que foi construída conjuntamente com um bom marido — coisa que não é nem de longe dispensável, como os mais modernos e progressistas querem que seja.
Se ela optasse pela família e simplesmente ignorasse seus sentimentos, teríamos um filme moralista. Se ela optasse pela paixão e ignorasse a família, teríamos um filme infantil, romântico, bobo. A todo momento vemos uma personagem andando numa corda bamba; quando achamos que ela vai tombar para um lado, eis que ela cai do outro.

Eis que um filme se mostra maduro. Sobre escolhas e decisões não há nada que nos distancie de um implacável sacrifício. Precisamos sacrificar uma vida para viver outra, não há atalhos, não há soluções. C’est La Vie.

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