Somos todos Birdman

*Texto que fiz para o blog In Vino Veritas

“Birdman: A Inesperada Virtude da Ignorância” é um filme de 2014 dirigido por Alejandro Gonzáles Iñárritu. É o décimo primeiro filme desse diretor mexicano de nome engraçado e cheio de acentos.
Dos 6 prêmios que o diretor recebeu no cinema ao longo da vida 4 se devem a Birdman, incluindo o badalado Óscar de “Melhor Filme”, consagrado em 2015.
Mas não é sobre o cinema que vamos falar e sim o que esse filme pode falar sobre nós.
Primeiro uma breve descrição da sinopse: Riggan Thomson (Michael Keaton) é um diretor e roteirista de teatro que, tempos atrás, foi um ícone pop de um filme de super-herói, interpretando Birdman. O filme explora a mente de Riggan em sua busca por fazer algo que considera “artisticamente relevante”, tentando se desvinciliar da figura que lhe deu fama.
O filme mostra muito bem o nosso desespero paranóico de passar essa vida e deixarmos uma boa impressão.
Ele queria ser grande, queria ser profundo, queria ser admirado por pessoas cultas e ver seu nome respeitosamente comentado nos cafés, com gente chique e intelectual. Quem não quer isso?
Seu medo era de passar a vida sendo lembrado como uma moda passageira, uma diversão, um entretenimento “vazio”. Seu medo era ser eternamente lembrado como o Birdman.
Apesar de não fazer mais o papel de Birdman, Birdman o perseguia, conversava com ele. ERA ELE.
O filme não toma posições, não diz, ao menos explicitamente, se é certo ou errado isso tudo. Se é um problema de aceitação e crise de pedantismo. O filme apenas nos coloca um espelho. Riggan Thomson pode ser qualquer um de nós.
Eu posso apostar que você fica melancólico toda vez que faz uma avaliação de sua própria vida. Que você olha os anos passados e conclui, com tristeza, que não construiu nada suficientemente memorável e realmente relevante para o mundo. Você não é o único. O desejo de deixar uma marca na verdade é algo mais comum do que se imagina, está presente em todo homem. Temos um desejo que não se sujeita ao tempo de uma vida, o filósofo alemão Schopenhauer diz que isso é o “suspiro da Espécie”. Do ponto de vista cristão podemos interpretar como um resquício da “Queda de Adão” e uma vontade incontrolável de “voltar ao Paraíso”, de sentir novamente a imortalidade. É uma “vontade de Infinito”, como bem diz Ratzinger, e uma fome de “Coisas Eternas”.
Queremos ser lembrados pois queremos ser eternos. Odiamos a finitude, odiamos a morte, odiamos o esquecimento. Também odiamos ser frutos de coisas passageiras, odiamos ser uma peça vazia perdida no tempo, queremos relevância e substância. Queremos não apenas uma memória, mas uma boa memória. Queremos que o mundo tenha uma lembrança construtiva de nós. Queremos ser admirados o tempo todo, e nos frustramos quando nossa consciência nos trás o espelho e vemos que ainda estamos vestidos numa fantasia ridícula de Birdman.

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