Textão sobre a Escravidão

O que é verdade e o que é mentira nessa porcaria

A escravidão é um tema muito amplo e complexo para ser estudado sem fazer aquela velha e chata contextualização, já que absolutamente todas as sociedades, civilizações ou tribos, sob religiões ou seitas, com pelo menos mais de 1000 anos de existência, já tolerou alguma forma de escravidão.

Até mesmo povos escravizados tinham legislação própria para escravos, como por exemplo os judeus. No Antigo Testamento há varias passagens a respeito.

A escravidão foi abolida pelos europeus primeiramente na Europa, e mais tarde estes também a aboliriam em quase todo o resto do mundo, apesar de atualmente ela existir de forma legal no Sudão e de forma ilegal em muitos países, sobretudo na África e em algumas regiões da Ásia.

No Brasil, a escravidão já existia antes da chegada dos europeus, quando os ameríndios escravizavam pessoas de tribos inimigas, as vezes escravizando até mesmo alguns europeus como no caso de Hans Staden, que ficou por 8 meses na condição de escravo e após sua lograda fuga, voltou para a Alemanha onde escreveu um livro relatando sua experiência.

Na África existia uma grande quantidade de mercantes de escravos principalmente no Reino de Daomé.
Nessas regiões e em muitos outros reinos da África, eram os próprios africanos que operavam o comércio de escravos.

A dominação europeia se restringia a um forte no litoral.

Uma coisa que pouco se comenta é que os escravos africanos levados ao continente americano já estavam em condição de escravo na sua terra nativa e que diversos traficantes de escravos eram negros.

Alguns negros libertos também possuíam escravos nas Américas.

Não deveria causar espanto nenhum afirmar que Zumbi dos Palmares, que eu acho uma figura admirável em muitos aspectos, tinha escravos em seu Quilombo. Ele, assim como todo europeu e toda sorte de padres e Papas da Igreja Católica, também era fruto do seu tempo. Não mais, não menos.

Há outras histórias interessantes no Brasil que são pouco contadas. Havia negros no Brasil que tinham negócios com brancos, como bem conta o livro “Escravos e Libertos nas Minas Gerais do Século Dezoito”, do historiador Eduardo França Paiva.

Alguns negros do Brasil chegavam a deixar escravos de herança, como a angolana Isabel Pinheira que morreu em 1741 deixando sete escravos no testamento, que deveriam ser todos alforriados quando ela morresse. Na década de 1760, a negra baiana Bárbara de Oliveira tinha vários imóveis, jóias, roupas de seda e nada menos que 22 escravos. Era uma fortuna para a época.

Como se pode notar, é muito difícil apontar o dedo na cara de alguém para culpar a escravidão, já que era uma prática generalizada e completamente universal.

Quando se tenta aproximar a escravidão aos brancos, aos negros (de forma reativa), aos católicos, aos muçulmanos (de forma reativa), é sempre uma falsificação da história com discurso político.

Por falar em católicos, é interessante também jogar os cristãos nesse meio e avaliar a evolução do pensamento abolicionista.

O cristianismo era uma religião extremamente hostilizada no começo e a única coisa que preocupava o cristão era sua própria existência no mundo.

Obviamente que as primeiras preocupações cristãs era libertar escravos cristãos.

Assim nasce a Ordem Real, Celestial e Militar de Nossa Senhora das Mercês para a Redenção dos Cativos, fundada por São Pedro Nolasco, que se empenhou em resgatar os cristãos cativos (escravos) de mãos muçulmanas, especialmente ao longo da fronteira que a Coroa de Aragão compartilhava com a Al-Andalus (Espanha Muçulmana).

Entrementes, a Igreja Católica, sobre a escravidão, podemos encontrar bulas papais a respeito. Há a Sicut Dudum (1435) — Eugênio IV, que mandava libertar os escravos das ilhas Canárias; em 1462, Pio II instrui os bispos a pregarem contra o tratamento de escravos negros etíopes, e condena a escravidão como um “crime tremendo”.

A Igreja chegou flexibilizar escravidão, com as bulas papais como Dum diversas (1452) e Romanus Pontifex (1455), para sarracenos e pagãos, que deveriam ser evangelizados enquanto cativos e, depois, libertos. Não vou justificar nem defender isso, é o que está escrito. Muito provavelmente seu professor só cite essas.

Tempos depois, com Paulo III, na bula Sublimus Dei (1537) recorda aos cristãos que os índios são livres por natureza (isto é, ao contrário dos negros, eles não praticavam a escravidão) e proíbe a prática da escravidão deles. Em 1571 o dominicano Tomás de Mercado declarou desumana e ilícita a escravidão.

E, finalmente, Gregório XIV — Cum Sicuti, de 1591 — e Urbano VIII — Commissum nobis, de 1639 — condenaram a escravidão em qualquer aspecto.

Isso causou um certo desconforto em reis e todos os senhores de escravos da Europa, mas não ao ponto deles pararem as práticas. Mesma coisa acontece hoje. Não é porque a Igreja é contra o aborto que um monte de país, inclusive de maioria católica, deixam de legalizar isso.

Sob forte pressão política, houve “pouca vontade” para praticar o que a Igreja manda.

Percebam que isso acontece ANTES do advento do que seria chamado “humanismo secular”. Sempre dizem que o “humanismo secular” do século XVIII influenciou a Igreja a se tornar mais humana quando, se formos considerar quem antecedeu quem, foi a Igreja que influenciou o humanismo secular nos pontos que eles defendem sobre a universalidade da dignidade humana. O Iluminsimo é a maior mentira da história.

Para terminar, uma belíssima cena do filme 12 anos de Escravidão:

My soul arise in heaven, Lord, for the year when Jordan roll

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