Another Brick In The Wall

Roger Waters, baixista da banda inglesa Pink Floyd, escreveu Another brick in the wall no final da década de 1970 criticando o sistema educacional tradicional, e as formas como impedem o desenvolvimento do pensamento livre.

Dividida em três partes, como três tijolos unidos com argamassa, a música fala de opressão, segregação e veto ao desenvolvimento pleno.

A parte II, a mais conhecida, conta os seguintes versos:

We don’t need no education
We don’t need no thought control
No dark sarcasm in the classroom
Teachers leave them kids alone
Hey! Teacher! Leave them kids alone!
All in all, it’s just another brick in the wall
All in all, you’re just another brick in the wall

Em tradução livre:

Não precisamos de nenhuma educação
Não precisamos de controle mental
Chega de humor negro na sala de aula
Professores, deixem as crianças em paz
Ei! Professores! Deixem essas crianças em paz!
No fim das contas, era apenas outro tijolo no muro
Todos são somente tijolos na parede

Quem lê ou escuta a música de Waters pode pensar que as metáforas do artista apontam uma situação que só se restringem ao conhecimento e manifestação, mas as muralhas físicas ainda são uma realidade latente. Assim como barrar o conhecimento impossibilitam o pensamento crítico, os muros de concreto também impedem a liberdade.

Seja através de tijolos, arames farpados ou cercas elétricas, muros estão sendo construídos a todo vapor em várias partes do mundo, em um ciclo que não parece terminar.

Em Calais, na França, por exemplo, um muro de quatro metros está sendo erguido para impedir a passagem de pessoas em direção ao Reino Unido, especialmente refugiados da guerra na Síria. Somente em setembro deste ano, 3686 pessoas morreram em decorrência do conflito, de acordo com o Observatório Sírio de Direitos Humanos.

A “Grande Muralha de Calais”, como está sendo informalmente conhecida, é parte de um pacote de medidas de segurança de 17 milhões de libras esterlinas (22,75 milhões de dólares) realizado pelo Reino Unido e a o governo francês em março deste ano. Ou seja, ao invés de investir no acolhimento e qualidade de vida dos refugiados, recursos estão sendo usados para afugentá-los em mais um sintoma dessa enorme crise humanitária.

“Os muros são historicamente inúteis. O maior muro do mundo, a grande muralha da China, edificada pelo imperador Qin, no século III a.C., construída e reconstruída até a época Ming, foi totalmente inútil para deter as invasões. O muro de Berlin, entre 1961 a 1989 foi inútil para deter o fluxo migratório. O muro da nossa casa é inútil para deter ladrões, logo essa obsessão por muros deve ser muito mais obsessão de empreiteiras do que uma questão política. A questão da imigração não é resolvida com a repressão na fronteira. Enquanto houver necessidade as pessoas vão a nado, vão se atirar aos mares, vão cair em botes, porque não é possível deter essa onda a não ser resolvendo o problema. Os muros são um gesto político espetacular, como o insano do Trump está planejando fazer mais muros na fronteira entre EUA e México e fazer o México pagar”, comentou o historiador Leandro Karnal, no último dia 7 de setembro, durante o jornal da Cultura.

Assim como pontua Karnal, a sede de separar povos ainda avança, como as fronteiras que separam judeus e palestinos. No entanto, não são só governos decidem levantar barreiras, criando uma falsa sensação de segurança.

Ano passado meus pais decidiram cercar os muros do nosso terreno com arame farpado. Vários assaltos estão acontecendo em nosso bairro, principalmente pela manhã, por volta das 5h, 6h. Além de invasões a residências, vários vizinhos tiveram celulares roubados por pessoas em motos. Eu e meu pai quase fomos roubados em março do ano passado, quando saíamos de casa em um sábado de manhã.

Meus pais conversaram com meu tio, irmão da minha mãe, para ajudar a fazer o serviço. Meu tio sugeriu ainda que o muro tivesse mais três fileiras, para alinhar a série de tijolos. Hoje não consigo ver a rua sem sair de casa.

Sempre me pergunto se essa medida é eficiente de fato. Cada vez mais nos afastamos dos vizinhos, que poderiam ser nossa rede de contato e convívio, além da segurança.

Grandes condomínios hoje já oferecem serviços completos, até feira há dentro do espaço murado. Conforto, segurança são o chamariz para a construção desses grandes feudos modernos.

O que mais me preocupa, no entanto, são as fronteiras de pensamento. Enquanto houver insanos que nem Donald Trump e pessoas que apoiem a segregação haverão muros. Repensar a música de Waters nunca foi tão importante.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.