O ano que me afirmei negra

Das descobertas de 2015, um ano de conhecimento, conquistas e também derrotas internas, afirmei-me negra.

Sempre fui chamada de morena. Nos círculos sociais, na escola, dentro da família, por amigos. Os traços de negritude foram sendo apagados.

Passei por alguns episódios, no entanto. Quando criança, um colega de escola disse que eu havia batido a minha cabeça num poste, por isso que tinha “um nariz amassado.” Chorei por dias, coloquei pregadores no meu nariz para afiná-lo.

No ensino médio, gostava de usar longos cachos, mas fui aconselhada a alisar. “Cachinhos assim são coisas de menina, alisa”. Assim que apareci com escova e chapinha no cabelo, fui elogiada: “nossa, como você está mais bonita!”

Mas foi naquele período que tive as minhas primeiras reflexões sobre quem sou. Estudei em uma escola particular de elite, quase não tive colegas negros.

Tive importantes referências, no entanto. Minhas duas professoras de história eram negras. Foi com elas que aprendi um pouco sobre a crítica da história e também o continente africano, tema que foi criticado por alguns colegas na época. “Não cai no vestibular” era a justificativa.

Durante o curso pré-vestibular, há quatro anos, outro confronto. Um amigo, também negro, conversou comigo sobre racismo e as minhas origens. Falei sobre meu pai, que é negro, sobre meus avós também. Fiquei pensando sobre o diálogo por dias.

De outros amigos, entretanto, eu ouvia: “mas você não é negra”. Estava em um campo misto, no qual não era branca nem negra.

Aquelas ideias e pensamentos ficaram na minha cabeça, mas até então não sabia o que EU era. Sou negra? E as minhas outras origens familiares? Há também indígenas, há brancos… O termo “pardo” me incomodava.

Comecei a fazer jornalismo na USP. Apesar de ter conhecido várias pessoas com origens variadas na graduação, logo percebi que o vestibular não é apenas uma prova, mas sim uma seleção social.

Durante este tempo consolidei minhas ideias em relação ao feminismo, ao empoderamento da mulher, em como poderia lutar contra atitudes machistas e de segregação contra as nós mulheres. Queria libertar e libertar-me.

Algumas inseguranças permaneciam, no entanto. A questão do cabelo ainda era forte para mim. Recorri a diversas técnicas de alisamento, este ano ainda fiz uma escova progressiva. Arrependi-me profundamente. Acordei no dia seguinte sem os meus cachos, parecia que não era EU.

Em julho, outro confronto foi definitivo para a minha afirmação.

Participei da cobertura da Marcha do Orgulho Crespo, em comemoração ao dia Mulher Negra, Latino-americana e Caribenha. Um dos participantes da Marcha perguntou de onde eu era, logo começamos a conversar. “Nossa, que maravilha você negra, trabalhando na grande mídia, estudando em uma universidade pública, isso aí menina!”, disse-me. Naquela hora não sabia o que responder.

Até então nunca tinha sido claramente chamada de negra. Nem nos debates estudantis da universidade, nem nas aulas de antropologia, nem nos encontros de estudos…

Foi em entrevista com ativistas negras que essa ideia foi posta à prova: afirmei-me como negra pela primeira vez, pois acompanhei e me reconheci em suas lutas.

Ouvi de uma das participantes: “usar o cabelo crespo é um ato político. Eu usei chanel liso por sete anos. Estamos cansados de padrões, de estabelecimento de regras.” Pensei naquele momento: “Caramba, se me incomodo com o meu cabelo quando aliso, por que continuo a fazê-lo?” Estava em um espelho de experiências. Vi pessoas que estavam tentando se descobrir também, não tentando DITAR, mas mostrar que não há regras.

Foi com muita leitura, conversas com algumas ativistas e nas próprias entrevistas que percebi que tudo o que eu havia passado não é mais nada do que sintomas de nosso racismo estrutural. Descobri que não existe um limite de cor, mas sim a tentativa de criar rótulos e eufemismos. Chamar de “morena”, por exemplo, é nos dividir em subgrupos, mascarando a cor e reforçando que o termo “negro” é ruim.

Continuo construindo a minha identidade. E nas minhas metamorfoses, espero aprender e entender mais coisas. Mas agora sei: SOU NEGRA.