Nós, ciborgues.

A naturalidade da artificialidade humana

O que é um ciborgue?

‘Ciborgue’ é um termo oriundo da língua inglesa, cyborg, que nada mais é do que uma união entre os termos ‘cybernetic’ e ‘organism’, que já explicitam do que o conceito trata: um organismo cibernético. Originários da ficção científica, ciborgues permeiam o imaginário coletivo como um passo futuro no desenvolvimento técnico humano: depois de sistematizar e compreender seu corpo como máquina, o homem visa fundi-lo com a própria máquina, embaçando o limiar entre orgânico e mecânico.

Inúmeros são os casos nas ficções de ciborgues: o caso mais famoso talvez seja de Steve Austin, o homem de seis milhões de dólares. Mas podemos pensar no Robocop, Anakin Skywalker (desde antes de ser Darth Vader, outro ciborgue), o Exterminador do Futuro, os Androides de Dragon Ball Z e vários outros.

Contudo, apesar do conceito ser recente — cunhado na década de 1960* — o ser humano já pode ser pensado como um ciborgue há muito mais tempo do que se imagina. O que parece uma expressão de tempos futuros, aparentemente ser ciborgue está muito relacionado com o que entendemos por sermos humanos.

Ciborgues hoje

Muito do que se teoriza sobre a questão do ciborgue pode ser pensado na corrente de pensamento que intitula-se transumanismo. O transumanismo se baseia em uma busca pelo desenvolvimento humano que se vale de técnicas de incorporar elementos artificiais e externos ao biológico humano visando a superação de nossas limitações enquanto animais.

São muitos os casos de seres humanos com dispositivos acoplados a seu corpo que possuem funcionalidades seja de suplementação de capacidades perdidas ou de extensão dessas capacidades. Esse trecho se dedica a mostrar alguns casos materiais de ciborgues ao sentido clássico no mundo atual.

Neil Harbisson

Neil nasceu com uma deficiência rara, chamada acromatopsia, uma condição faz com que não veja cores. Contudo, desenvolveu um método que o permite experenciar cores: uma antena com câmera que identifica cores e as converte em sinais sonoros. Os sinais sonoros são transmitidos para um implante auditivo, sendo assim possível que ele ouça cores.

Kevin Warwick

Warwick é professor de cibernética em uma universidade inglesa. Após anos de pesquisa e tentativa, em 1998 leva a cabo suas propostas e começa a se dedicar a tornar-se um ciborgue completo. Começando por um chip implantado em seu braço (uma versão mais avançada que o protótipo mostrado na foto), controla diversos dispositivos em sua casa, como computadores, portas, luz e o sistema de aquecimento conforme ele se movimenta através dos cômodos.

Jesse Sullivan

A tecnologia ciborgue se destaca no uso de próteses para auxiliar amputados. Membros robóticos já são uma realidade e o caso de Jesse é um caso de pioneirismo no uso: controla seus membros através de um sensor implantado num nervo muscular, e além de fazer esse controle com sua mente, há um caminho de mão dupla: também é capaz de sentir calor, frio e textura através dos sensores em seus membros implantados.

Jens Naumann

Após uma série de acidentes, Jens Naumann perde a visão nos dois olhos. Contudo, em 2002, participa de um projeto e se torna o primeiro ser humano a receber um sistema de visão artificial. Através de implantes cerebrais, Jens é capaz de ter experiência visual (diferente de outros casos, em que a experiência é transmutada em outro meio). Apesar de precária, a visão artificial permite a distintição entre linhas e formas, com a qual permitiu a ele dirigir um carro.


Contudo, apesar desses casos supracitados que evocam a ficção científica e distopias tecnológicas, que envolvem implantes mentais e dispositivos cibernéticos, a noção de ciborgue está muito mais próxima da realidade do que imaginamos.

Filosoficamente, ciborgues.

Em filosofia, o conceito de ciborgue é apresentado por Andy Clark, muito bem desenvolvido em sua obra Natural Born Cyborgs. Neste livro, o autor defende que o ser humano é naturalmente um ciborgue — ponto de chegada desse artigo, após as devidas apresentações.

O conceito de ciborgue é pensado a partir da concepção da mente estendida. Essa concepção, na filosofia da mente, serve para nos mostrar situações em que a mente humana age de maneira integrada a outros elementos ou dispositivos, formando um sistema integrado.

A Mente Estendida

Ao pensar ao mente estendida, se destaca o trabalho de Clark & Chalmers, The Extended Mind. O argumento apresentado no artigo pelos autores é simples: a mente humana está para além do cérebro e funciona de forma integrada com objetos ao nosso redor, sendo o nosso sistema cognitivo formado não só pelo cérebro.

Para desenvolver seu raciocínio, os autores nos sugerem pensar no caso de Otto, um portador de Alzheimer. Otto carrega diariamente uma caderneta, na qual anota seus compromissos diários, endereços, números de telefone e outras demais informações a fim de compensar sua memória debilitada. Ao tentar se lembrar de algo, instantaneamente consulta sua caderneta e voilá, lembrou-se.

Aparentemente, parece um salto de raciocínio absurdo defender que ao consultar dados escritos, Otto esteja pensando. Porém, o faz de maneira análoga à forma como consultamos nossa memória. Pode-se dizer que esse evento não seria um evento mental?

Num paralelo, pensando uma distopia cyberpunk (que nem precisa ser tão distante assim), se um indivíduo tem um implante cerebral que o permite efetuar certos comandos num computador que opera, pode-se dizer que essas operações não sejam operações mentais?

Apesar de propostas simples, a ideia da mente estendida nos serve para pensar muito o que entendemos sobre a própria ideia do que é mente e sobre a relação entre mente e cérebro. É provável que o que entendemos por mente não possa ser restrito ao cérebro. Porém, esse assunto está pra além do escopo do texto e não será aprofundado aqui.

Ciborgues e a mente estendida

A partir da ideia de mente estendida, podemos pensar a ideia de ciborgue dentro da filosofia. Não ao modo que o termo significa ao pé da letra de maneira tradicional, um organismo cibernético, mas pensar no ciborgue como uma criatura híbrida entre aparato biológico e outro dispositivo artificial, seja qual ele for.

Ao longo da história humana temos diversos exemplos de como acoplamos dispositivos ao corpo e os integramos de maneira direta a nossos sistemas cognitivos — digo direta pois é comum que nós mesmos nos esqueçamos desses dispositivos ao passo que os usamos.

Ao conceber tais dispositivos, podemos pensar em óculos, lentes de contato, aparelhos auditivos, muletas, próteses, bengalas. Mas podemos pensar também em agendas, relógios, cadernos, smartphones e computadores, e talvez possamos ir além: a relação de um desenhista com seu lápis, no ato do desenho, talvez já não seja uma relação também imediata?

Podemos ir além e, considerando a capacidade humana de acoplar dispositivos à sua mente, talvez tenhamos sempre sido ciborgues ao passo em que nos caracterizamos como humanos: nosso próprio pensamento se vale de um dispositivo elementar artificial para além da própria mente, a linguagem. Porém, tal salto serve mais como mecanismo de evidência da artificialidade de dispositivos do que como exemplo para o ponto que o texto se pretende.

Mentes e dispositivos

Poderia começar por fazer algumas perguntas para o caro leitor: já lhe foi o caso de consultar as horas e quando imediatamente interpelado depois, não sabia que horas eram? Já ocorreu ir de pronto consultar seu celular em busca de informações como endereço ou datas que lhe foram enviadas via mensagem? Quantas vezes para fazer um cálculo não preciso de um apoio físico para concluir o raciocínio, usando dedos ou um aporte escrito?

As perguntas acima são apenas uma pequena demonstração de como nossos processos mentais funcionam de maneira acoplada a outros dispositivos. Estamos constantemente buscando um aporte para além de nossa própria capacidade mental que dê suporte e amplie nossas capacidades. Isso se dá tanto no caso de uso de próteses que suplantem deficiências quanto no cotidiano uso de celulares e outros aparelhos de registro de informações.

Antes de carregarmos conosco um dispositivo portátil que contém uma absurda capacidade de agregar informações, a quantidade de dados que tínhamos que nos recordar era colossal: números de telefone, endereços, compromissos, datas de aniversário, enfim, toda sorte de informação que a cada um lhe parece essencial.

Contudo, muito cabe pensar aqui. Talvez o mais intrigante a ser investigado é o caso de como nosso cenário mental pode ser influenciado por dispositivos acoplados. O próprio uso de um telefone celular , um objeto tecnossocial, que permite ao usuário entrar em contato com outros usuários através de uma rede já caracterizaria um ciborgue low-tech. Nossa própria vida urbana, em que passamos os dias conectados a máquinas, talvez nos torne um pouco ciborgues. Como isso afeta nossas formas de pensar ou existir?

Há muito já se alerta ou se pensa como dispositivos tecnossociais afetam a interação humana. Contudo, muito dessa discussão é envolta em um obscurantismo ludista, que carrega muito de uma tentativa de exorcismo desses dispositivos, como se fossem a priori maus. O desafio para os tempos futuros é esse tipo de pensamento de forma não enviesada, que não carregue esse temor ao novo — tão costumeiro na história da humanidade.

Questões para o futuro

Pensar ciborgues, seja ao sentido clássico ou no ser humano em uma condição ciborgue é um desafio de nossa era. Inevitavelmente, uma severa parcela da população já se enquadra no conceito clássico de organismo cibernético, possuindo próteses, marcapassos, implantes que liberam drogas, lentes artificiais no lugar das córneas ou pele artificial — isso sem contar os demais casos do ciborgue metafórico: o adolescente viciado em videogame, o neurocirugião que opera usando um computador, a criança que já nasce imunizada contra doenças, o motorista cotidiano ou eu e você, que diariamente operamos máquinas.

Todos esses casos são ínfimos quando pensadas as possibilidades futuras. Recentemente correram notícias de patentes de lentes de contato que permitiriam registros fotográficos e gravação de vídeo. Não demorará até que a tecnologia de impressão 3d seja utilizada para gerar novos órgãos ou membros, como o caso de que já foi impresso um coração humano funcional.

Cabe a nós pensar no ciborgue, presenciando esse processo como mais um passo na evolução humana, arrisco eu, tão importante como o advento das ferramentas ou agricultura. Os limites no ser humano entre natural e artificial, biológico e cibernético, orgânico e mecânico etc. são cada vez mais tênues, como já nos alertou há décadas Donna Haraway, em seu Manifesto Ciborgue.

Existem profundas questões de cunho filosófico evocadas pela ideia do ciborgue. Quais são os limites entre mente e o cérebro? Como podemos pensar os sistemas de percepção humanos da realidade a partir de sua modificação? Os sentidos emulados são fidedignos às percepções humanas? Qual o limite entre o natural e o artificial na mente humana, considerando que até a linguagem é artificial? Que tipos de capacidades mentais podem ser ampliadas pelo uso de implantes?

Para além da filosofia, pode-se pensar em outros tipos de questionamentos que circundam a questão do ciborgue. Como serão as interações sociais, já marcadas pelo uso de redes de comunicação, com a aproximação dos dispositivos que permitem essa comunicação da mente humana? De que forma as relações humanas podem ser afetadas através da incorporação de dispositivos cibernéticos? Com a proximidade e maior facilidade de busca por informações e a cada vez menor necessidade de acumular informações, como será a educação?

Como diz o clichê, são questões que só o tempo poderá responder — mas nós, olhando para o presente, nos prestamos tentar adivinhá-lo.


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