He Even Has Your Eyes
O racismo está presente em nossa vida. Todo dia, ao amanhecer até o anoitecer, do café ao jantar, da ida à volta rotineira. Ele vai marcar presença e vai fazer questão de redarguir, em tom alto, presente.
O filme mostra formas silenciosas que o racismo se apropria da vida dos negros, isso em qualquer lugar. O filme se passa na França e vai contar a história de um casal hétero afro-francês que decide adotar um filho. A sinopse em si é um clichê, confesso que não me convenceu de início, mas dei a chance. A esposa, Sali, veio com sua família da África Ocidental, e o marido, Paul, é caribenho. Felizmente, conseguiram se estabilizar na capital do país, faltando apenas o complemento da família perfeita: um bebê.
(…)
Enfim, conseguiram. Chegou a notícia para eles que tanto queriam, a adoção para o casal estava prestes a acontecer. A novidade vem depois: o bebê é branco. Branco. Branco. Branco. Para uma família Preta. Preta. Preta. Em um país europeu. Europeu. Europeu. A partir daí, a história parece mudar. Um casal hétero negro com um bebê branco. Surpresa. Se surpreendem.
O racismo vive. Ele começou na vida da família de forma agressiva, logo, com a assistente social do Estado ficando não só com um pé atrás, mas com os dois, com essa adoção. Para ela, até ali, naquela socialização onde foi criada, não fazia sentido um branco com dois negros. Nem mesmo quando tudo mostrava o contrário. Aquela assistente social representa nossa sociedade e nosso sistema. O racismo na cabeça daquela funcionária do Estado está presente, mesmo que em alguns momentos ela se negasse a acreditar(vide sua conversa com o marido), mas é típico de branco isso, né?Afinal, a maior preocupação do branco é saber se ele está sendo racista ou não, aliás, ouse chamar um branco de racista. Sali percebia o que estava acontecendo, só não conseguia nomear, dizer, racismo, pois está tão enraizado em nossa sociedade, que às vezes dói nossa cabeça encontrar, tampouco nomear. Sali sabia o que estava prestes a enfrentar, como suas visitas ao pediatra, onde teria que ouvir narrativas seguidas como “A mãe dele não pôde vir?’’ “É uma adoção.’’ “Sim, mas cadê a mãe?’’, a pediatra, branca, o que conseguiu foi pedir desculpas, como todos brancos ousam fazer sempre que reproduzem erros. Essa cena no pediatra, particularmente, achei o máximo, amém ao diretor. Tem também a cena onde está com uma amiga branca e sua irmã reunidas num restaurante, e aparentemente, o dono do estabelecimento (é necessário só um mesmo pra fazer estrago) se aproxima, e em tom de intimidade, olha para a a amiga branca e pergunta o nome do bebê, em seguida soltando também um ‘’ele é sua cara’’, Sali fica chateada, mas entende. Não entenderia, o que a amiga soltaria depois, ‘’ ele é fofo, né?’’(para o dono do estabelecimento), deixando claro então que ela não percebeu o peso da narrativa que aconteceu ali. (não esqueceremos do óbvio, a abordagem recorrente de negros pela polícia continua em qualquer lugar) O filme é um debate sútil. Vai trazer discussões importantes como a miscigenação de cultura, vide o casal, vide a família de Sali.
O filme é incrível e traz como nossas socializações são pré criadas, coercitivas e exteriores a nós (fatos sociais, amém), pois quando percebemos, já estamos reproduzindo e o que nos resta é desconstruir, desconstruir e desconstruir, e que talvez exija e precise de episódios, de uma cena, como no filme, para percebermos que o racismo vive e para deixar de marcar presença é preciso destruir a estrutura, pois enquanto ela existir, ela ofende, ela mata.
*O filme tem cenas muito engraçadas e até tem na trilha sonora Nina Simone com Here Comes The Sun, se amei??
