Minha tia, ah, minha tia

Minha família é uma completa doideira. Não sei se ela é minha tia. Na verdade deve ser, mas ela é tia da minha mãe, consequentemente ela é minha parente de segundo grau (?). Não faço a mínima ideia, mas falam que família é aquilo que nós consideramos como tal, e então, eu considero ela como minha tia, né?

Não venho para o Estado de São Paulo faz vários anos, anteontem eu voltei com minha mãe para uma passagem rápida, e aquelas passagem rápida é sempre para matar saudades da família…

Em uma visita na casa de minha tia, Dona Lúcia, relembro todos momentos na casa dela… e na casa de cima, onde meu bisavô morava. Velhos tempos! Hoje volto para cá, como um menino que todos pegaram no colo, e agora, cursando Ciências Sociais. Minha tia ganha a vida costurando, ela ama costurar. Confesso que uma das únicas lembranças que tenho dela é ela e suas máquinas de costura. Ela tem uma filha e uma neta que mora contigo, é viúva, 65 anos e carrega nas costas a obrigação de dar o melhor que consegue sempre para as duas. Costura em casa mesmo, disse para mim que já tentou trabalhar em fábricas, mas não aguenta, pela idade se sentir pressionada(mais) é muito tenso.

Ela é a prova que o capitalismo não dá certo. Trabalha para um homem, que a cada semana contrata sua força de trabalho para fazer shorts e coletes. A cada colete feito, recebe R$2,00. A cada shorts, é R$2,50. Quinzenalmente, me disse que recebe R$600,00. Me disse que faz uma tabela de gastos, centavo por centavo. Perguntei então por quanto seu patrão vendia cada peça. Esse homem contrata o serviço dela e de mais 9 pessoas, mais ou menos. Ela me disse que o colete era vendido por R$20,00, por peça, pelo menos é o que ele deixou escapar uma vez. Trabalha para ele faz mais de 10 anos, indaguei e perguntei se ela percebia que ele enriquecia. A resposta foi simples: “bom, filho, ele aluga uma casa aqui em São Paulo, mora em Aparecida do Norte, sustenta sua família lá, tem carrão e moto, acho que sim.’’ Estirou sua resposta e disse que não tinha outra opção, era aquilo ou nada. Seu patrão era objetivo e claro, se não desse conta do serviço, havia quem fizesse. Perguntei se havia quem fazia a mesma coisa. Ela foi clara: “nossa, filho… não só quem faça a mesma coisa, mas ainda mais barato!’’, Como fui bobinho, né?

Ela é a prova que o capitalismo não dá certo. Trabalha, trabalha, de domingo à domingo. Disse que ás vezes consegue dar uma escapada, mas sabe que no outro dia fará o dobro. Desafiou o patrão uma vez, me disse toda entusiasmada, pois estava doente e quando ele chegou pra buscar as encomendas, não estava pronto e o motivo era por que ela estava doente. Ela acredita que não foi demitida pois ele percebeu que realmente, ela estava doente, vendo o estado dela. Tadinha, até acredita que o capitalista tem dó…

Quando se está inserido nesse sistema, o sistema não te faz questionar. Ele faz você produzir. O sistema é como um vírus em seu corpo que você se adapta vivendo com ele, a cura para esse vírus já existe, mas está longe do alcance da minha tia. Ah, tia… talvez você não pegue a revolução, talvez nem eu, nem mesmo suas bisnetas. Mas ela vai acontecer e nosso sangue estará vivo. Espero. Pois, agora, o que podemos, é tentar, por você, tia.