Detalhe

Há alguns meses entrei num processo frenético de me ocupar com atividades. Físicas, mentais e psicológicas. Universidade de cá, trabalho de lá e aquele algo a mais — no meu caso, dança e novos idiomas — para justificar as olheiras e a constante reclamação (que vinha com um gosto de satisfação) de que o dia andava muito curto.

Nesse frenesi, acabei conhecendo muita gente nova, mas a maneira como nos conhecemos acabou sendo a verdadeira novidade. Fosse uma entrevista, uma pergunta rápida ou uma conversa íntima, notava-se uma sinceridade no contato, por mais efêmero que fosse. Para quem acredita em energia, o termo para isso seria sincronicidade. É aquela velha história: aquilo que apresentamos para o mundo, o universo devolve.

Trazendo essa dinâmica para uma realidade mais tangível, o mais importante ao adentrar um ramo profissional como o jornalismo — cuja base está em conhecer e dialogar com pessoas diariamente — é não perder de vista sua noção enquanto indivíduo. É entender que essas breves relações cotidianas devem acrescentar milhas a sua viagem sem correr o risco de extravio de bagagem.

A ideia é sutil, mas pode ser o pulo do gato para despertar curiosidade onde muitos veem um grande vazio. E isso é um processo consciente de escolha, mais especificamente a escolha pelo detalhe. Coisa rara de se notar hoje em dia, com toda essa pressa do mundo tecnológico. Randall Munroe já alertou: “Há tantas aventuras que deixamos passar porque estamos à espera de um plano. Para encontrá-las, busque pequeninas escolhas interessantes”*.

É preciso admitir, contudo, que não é fácil. Primeiro, porque a sutileza do detalhe requer silêncio, geralmente associado ao tédio. E o tédio é encarado de forma pejorativa. Mas Joseph Brodsky já atentava para o papel fundamental do tédio de nos fazer perceber nossa própria irrelevância e a importância disso: “é este o seu significado — somos irrelevantes. Se para cair essa ficha for necessário um tédio paralisante, então saudemos o tédio. Somos irrelevantes porque somos finitos. No entanto, quanto mais finita uma coisa, mais repleta de vida, emoções, alegria, medos, compaixão”.

Segundo, porque a sutileza do detalhe trava uma batalha diária com o pragmatismo. Os repórteres que o digam. Com rotinas de redação e de produção exaustivas sobra pouco tempo para poesia. O foco é o fato (e vice-versa), expresso de forma clara e concisa em forma de notícia. Mas, de vez em quando, façamos o esforço de desacelerar a cabeça, escutar o silêncio e despertar a vontade de fazer algo diferente. Adélia Prado já dizia: “não quero faca nem queijo. Quero a fome”.

*Traduzido por mim do trecho original em inglês: “Take wrong turns. Talk to strangers. Open unmarked doors. And if you see a group of people in a field, go find out what they are doing. Do things without always knowing how they’ll turn out. You’re curious and smart and bored, and all you see is the choice between working hard and slacking off. There are so many adventures that you miss because you’re waiting to think of a plan. To find them, look for tiny interesting choices. And remember that you are always making up the future as you go.”

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