Palavras visíveis traz teatro surdo a Natal

Foto: Divulgação

Os três entraram na sala com aquele ar dos craques, quando vão à coletiva de imprensa falar com os jornalistas sobre mais uma partida emocionante, cheio de dribles, gritos, defesas e gols. Só que o jogo ia acontecer só no dia seguinte, e eles ansiavam em ver a torcida, ou melhor, a plateia aplaudir. Eram atores adultos, experientes, fortes, mas com sorriso de menino.

Alexandre, Silas e Marcelo são surdos. Mas isso não é o mais importante sobre eles. Vieram do Rio de Janeiro, pelo Ponto de Cultura Palavras Visíveis, um projeto de capacitação de atores surdos do Grupo Teatral Moitará, trazer o espetáculo “A busca de Seo Peto e Seo Antonio”, que foi encenado no auditório do IFRN, campus de Natal, no último dia 30.

A ideia peça começou quando Alexandre Pinto, 51, e Silas Queiroz, 67, criaram as máscaras de dois personagens idosos, para depois começarem os trabalhos de pesquisa e caracterização. Depois, convidaram Marcelo William, 38, para fazer parte do projeto. Os três atores encenaram a história de Peto, que criou um pássaro para lhe fazer companhia, mas ganhou vida e fugiu de seu criador, e Antonio, que acabou de perder tudo na vida e tenta resgatar o passado. Os dois são amigos, mesmo não se vendo há muitos anos, e, quando se reencontram, são movidos pela aventura e vão em busca do pássaro Eros.

Poético, lúdico e alegre, o espetáculo tem um ar infantil e nostálgico, completamente acessível a pessoas de todas as idades, tanto surdos quanto ouvintes, já que prioriza a imagem e a linguagem corporal, utilizando pouca Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). As estrelas da peça, apesar de orgulhosos de seu trabalho, demonstram preocupação na inserção de pessoas surdas em atividades artísticas. “O problema é que alguns surdos se limitam apenas à área da educação, porque não tem outros lugares, além da faculdade, que incentivem o lado cultural do surdo”, diz Alexandre, criador da máscara de Seo Antonio.

E foi essa preocupação que levou Fábia Fernandes, uma das idealizadoras do Projeto Narrativas do Silêncio e alunas de Tecnologia da Produção Cultural no IFRN, a trazer o espetáculo até Natal. “Nós fizemos uma pesquisa na ASNAT (Associação de Surdos de Natal) para saber o que os surdos gostariam de aprender”, conta Fábia. Em primeiro lugar, ficou a fotografia, o que levou a uma oficina exclusivamente para pessoas surdas, e as aulas tiveram tradução simultânea em LIBRAS. Em segundo, ficou o teatro, e então foi feito o contato com o Grupo Moitará.

Os atores confirmaram, ainda, que há um filme, em andamento, que será totalmente em LIBRAS, com legenda em português, e se orgulham da importância de um projeto como esse. “Nós queremos que a comunidade surda perceba que nós não somos atores amadores, queremos mostrar que o surdo pode se desenvolver de forma profissional e que esse trabalho pode ter continuidade”, diz Silas, que interpreta Seo Peto.

Eles sabem que deu tudo certo e que o espetáculo foi lindo, arrancando aplausos — surdos e ouvintes. Mas, mesmo que o jogo esteja ganho, esses atletas do teatro têm consciência de que o campeonato ainda é longo, como diz Marcelo, esperançoso: “Estamos torcendo para que nós continuemos desenvolvendo esse trabalho e que a sociedade abra de fato seus olhos”. E todos estão torcendo, afinal, o show não pode parar.

Texto escrito para a Agência Fotec em 14 de outubro de 2016

Original: http://www.fotec.ufrn.br/notice/240

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