Sobre ideologia

Quando o assunto é ideologia para mim só há direita e esquerda, pois acredito que o pensamento, por mais complexo que seja, se contém nesses dois universos. Consequentemente, se o pensamento se enquadra nesses dois grupos, então pode-se afirmar que as ações humanas (políticas, culturais, filosóficas) também se encaixam nessas duas categorias, nessas duas ideologias, ou seja: o que acreditamos ser o correto (ou errado) a se fazer em dada situação, a nossa leitura do mundo forma a nossa ideologia, as nossas emoções, experiências, o jeito particular de cada indivíduo de capturar a vida e a existência, a nossa capacidade de interpretação, isso é ideologia.

Dizem que há um “centro”, mas não acredito na sua existência, pra mim quem se diz no centro 1) ou não tem conhecimento o suficiente para tomar uma posição política, e com isso causa mais transtorno do que ajuda, ou 2) é uma pessoa que tem a ética “um pouco desajustada, pois mesmo tendo uma ideologia, ela transita entre as duas, ora defende uma, ora defende outra, ou 3) é alguém que não tem opção de agir conforme a sua ideologia, seja por pressão social, financeira ou moral, essa sendo considerada a pior situação: fazer algo no qual não acredita por não ter escolha.

Essa terceira opção é como se fosse um tipo de prisão ideológica, pouco a pouco fazendo com que você desacredite na sua própria ideologia, ou seja: em quem você realmente é. Enfraquecê-la, fazer com que você deixe de ter seu ponto de vista próprio para desenvolver um ponto de vista que sirva o interesse de alguém, eu não digo lavagem cerebral, mas um molde no comportamento.

Hoje no Brasil (e quem sabe no mundo) vivemos um pouco disso, o enfraquecimento sistemático da esquerda como ideologia, quero dizer, isso não é de hoje, nem de ontem, porém parece existir um outro fator preocupante em jogo: a ignorância. É claro que isso sempre existiu, e é claro que essa ignorancialização vêm sendo empurrada pela elite mundial e consequentemente brasileira. A prova disso é a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, a ignorância conseguiu eleger seu candidato! E como era de se esperar, foi uma péssima escolha.

Abertamente misógino e racista, foi eleito o presidente da maior (e única) potência mundial. Ainda mais para suceder o primeiro (e segundo) presidente negro dos Estados Unidos. Parece mesmo que Obama não agradou a elite americana, o ressentimento foi tamanho que logo depois elegem um supremacista branco para o mesmo cargo. O ponto em que eu quero chegar é que essa onda conservadora (ignorante) vai chegar no Brasil, e olha como já estamos agora!

Nosso país sendo o colonizado, importa a cultura americana como se fosse a dele, e perde assim a própria ideologia como nação, como latino americanos, como brasileiros e soberanos de si próprios. Importamos a música, a arte, a internet, a tecnologia, e também as paranoias e as doenças, o mau hábito, as manias e desejos. Não que isso seja ruim, porém é determinante que durante o processo consigamos manter a nossa própria unidade como povo, caso contrário as pessoas entram no molde que eu mencionei acima, e desaprendem a desejar as coisas por si.

Na medida em que deixamos de acreditar no que realmente acreditamos, nos tornamos suscetíveis ao controle ideológico, ou seja, incapaz de pensarmos por nós e tomarmos ações condizentes com o que acreditamos, adotamos a ideologia alheia, e que não necessariamente é equivalente à nossa, nos tornamos ignorantes.

E o pior tipo de ignorante: o que sequer se reconhece como tal.

Para concluir, o meu medo é 2018, no “auge” do mandato de Trump teremos eleições presidenciais aqui no Brasil. O problema da esquerda não é e nunca foi a direita, mas sim a falta de ideologia, o problema é quando (até) a ignorância é apropriada pelos ricos para interesses próprios (não individuais, mas próprios).

Ainda esse ano a burrice permitiu (e colaborou para) um golpe de estado, em 2018 a ignorância vai ser institucionalizada formalmente no nosso país.