As Fantasias de Fabrício: Reabilitação

Estava perambulando parado. Pensando em alguns documentos que precisam ser separados, louça na pia, vaga do coração vazia.

Fazia tanto tempo que eu não lembrava. Os meses passaram e eu deixei de querer seus beijos — mentira deslavada que digo sempre que lembro de nós nas madrugadas de sexta pra sábado. Fui mudando a rota, deixei umas histórias de lado, parei de comparecer em lugares que poderiam me lembrar você, ou pior, ver você.

Sabemos bem como acaba quando as íris dos meus e dos seus olhos criam trilhas para dar de cara uma com a outra. Então prefiro pensar que todos os corpos de todos aqueles outros garotos — que aos seus olhos são lindos, mas que pra mim não mais depois de você — estejam te satisfazendo o bastante para que nem lembre de nossa história. Esta que talvez só permaneça viva comigo. Sua mania de tornar tudo tão insignificante pode ter transformado essa “coisa louca” (como você dizia) em um absoluto nada cheio de um vazio alcoólico.

Lito, lembra que eu amava te chamar assim? De alguma forma isso me fazia sentir único, ninguém mais o chamava assim. Seria errado dizer que as vezes sinto falta? Não tenho noção alguma da dimensão do sentimento que se fez morada dentro da minha alma, afeto que coloquei os pés e me deixei imerso às mentiras dos passos de dança em meio a multidão naquele batidão.

Tão sujos de prazer, tão afogados em turbilhões de bolhas de sabão no coração.

Eu vou te ser sincero, Lito… Da tua boca quero cada espaço, do teu toque quero liberdade, do teu olhar, infinito. Entretanto, estou aqui, afastando você com o remédio chamado vida. Ela segue, ela te leva pra longe, mesmo que ainda seja tão perto sua respiração quando as janelas do meu rosto se fecham.

Então vá, pois isso faz mal para minha recuperação, andei me saindo tão bem, consegui te ver como uma boa lembrança, sem esperança da sua mensagem depois da farra, me vi levantar com um poder dos pés a cabeça. Então apenas vá.

Vá para eu te ver dançar apenas na memória. A luz ainda toca a pele, a dança ainda sei de cor, mas dela, meu grande amor, quero apenas distância.


Fabrício ainda escreve cartas à Carlito, mesmo negando e muito menos levando o conhecimento delas até ele. Ainda que inconsciente, respira fundo quando o vê nas redes sociais.

Ah Fabrício, sentimento tão lindo e um medo tão obscuro…