“A Lei É Pra Proteger Patroa”

Foto “pepper sprayed” por: Dying Regime

Já faz algum tempo que tive essa conversa com Edivalda, a diarista que limpa minha casa (mesmo sob protesto de uns tempos pra cá, mas isso é assunto para outro texto) uma vez por semana há pelo menos 8 anos, mas que me marcou e me fez rever uma lei que eu celebrava como a maior conquista da mulher no Brasil.

Edivalda, mulher negra e moradora da periferia de São Paulo, tem três filhas e um filho; é evangélica e era analfabeta quando veio trabalhar aqui. É casada há mais de vinte anos com o mesmo homem, que conheceu aos dezesseis anos na igreja que frequentava quando jovem; ele é quase dez anos mais velho que ela e caminhoneiro.

Um dia estávamos falando de violência por conta de um caso altamente coberto pela mídia e, quase como um tiro a queima roupa, ela me revela que já foi vítima de violência física. O que mais me chocou, porém, não foi o meu primeiro contato com alguém já violentada, mas a forma que ela naturalizou o que sofreu:

“Polícia? Que polícia, minha filha? Eu tinha quatro filhos, não sabia ler, não sabia escrever… Ia criar esses moleque como? Tem lei que me ajude não”

Continuei questionando o porquê ela não procurou alguém, o porquê ela não pediu ajuda.

“Na igreja o pastor ia falar pra mim ficar com a minha família e minha mãe queria saber não, fia… Ninguém tá nem aí quando cê tem quatro filho nas costas não. Essa coisa de lei, de polícia, é pra proteger patroa”

Pois é Edivalda, veja você que ironia, Maria da Penha Maia Fernandes era uma mulher branca, farmacêutica, casada com um professor universitário, que a deixou paraplégica depois de um tiro de espingarda. A lei falhou com ela também.

Não são raros os casos de mulheres atacadas sobre a prometida “proteção da lei”; a cada duas horas (ou menos que isso) uma mulher é atacada e estamos falando apenas das que tomam coragem e vão à delegacia, passar por várias outras violências e são desassistidas novamente pela lei.

Edivalda é uma exceção a regra, hoje faz faculdade de nutrição e pretende seguir carreira na área. Continua casada, mas já me revelou diversas vezes que isso é pela inclinação religiosa que tem, o que provavelmente não durará.

Precisamos garantir que todas as mulheres sejam protegidas, mas ficar de olhos ainda mais abertos para as que são continuamente esquecidas em subempregos e situações de violência. Os olhos se fecham quando é confortável.

Edivalda, minha luta é por você, pela Maria da Penha, pela Marta, pela Juliana, que conheci na faculdade de jornalismo e foi agredida pelo pai durante anos e anos, e para que eu, privilegiada por nunca sofrer qualquer agressão física do gênero, nunca tenha que passar por isso.

Dez anos é pouco.

Like what you read? Give Gabriela Rodrigues a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.