Foi o Tapetinho do Banheiro

Daniela e João eram o casal mais lindo da escola, daquele tipo que só podia ficar junto, que um não era um sem o outro. Lembro que, no nosso grupo de amigas, era comum a rotatividade dos guris, nossas escolhas eram escassas, mas com o João nenhuma mexia. Jão era de Dani. Dani era de Jão.
Os anos foram passando e nosso grupo se separando, alguns se formaram, outros mudaram de escola, uma desencanou de estudar e foi viver em Cuiabá com o namorado. Até onde eu sei essa uma tá com três filhos já. Ainda me choco quando penso nisso, quem escolhe morar em Cuiabá? Muito quente lá!
Enfim, há alguns anos encontrei com Dani grávida nas redes sociais da vida, marcamos um café e lá fomos perder uma tarde falando da vida. Tinha certeza que o filho em sua barriga era de Jão, só podia ser do Jão. Lembro-me que eles falavam de se casar, tinham um cofrinho juntos onde colocavam o dinheiro para a viagem de lua-de-mel: Toronto. Dani sempre quis ir ao Canadá.
“Ah, não deu certo, terminamos assim que eu entrei na faculdade” — ela me contou e eu estava completamente estarrecida. Como assim? Estamos falando de um relacionamento de 7 ou 8 anos. Tem casamento que não dura tudo isso. Eu precisava entender, precisava de uma razão, precisava de uma explicação plausível… Não existe isso de simplesmente não dar certo!
“Sei lá. Foi o jeito que ele atendia o telefone. O como ele fazia comentários idiotas quando víamos TV. O jeito que ele comia cereal, não se come cereal com iogurte de cenoura!… Mentira!!! Foi o tapetinho do banheiro, nossa, sim, o tapetinho do banheiro!”
O que? — questionei com o terror em meus olhos, um amor não acaba porque ocasionalmente se tem uma marca de pés molhados no tapetinho do banheiro ou porque alguém tem aquela péssima mania de enfiar a batata frita no milkshake… Essa última é uma afronta a qualquer um que está comendo com você. Não faça isso.
Eis que recentemente tive um pequeno casóide — como os de sempre, não gosto dessa história de relacionamento — e ele terminou meio que do nada, anestesiado pela “falta de tempo de ambos” os lados. O engraçado é que o gatilho para que eu entendesse que aquilo não ia dar certo foi o estalar dos dedos do pé dele. Irritavam. Eu queria dormir e aquele pé estalava. O TEMPO TODO.
Todo o resto era ótimo, trocávamos mensagens quase que diariamente, não existia a cobrança por satisfação, comíamos em bons lugares — e em uns muito ruins também — , íamos a shows bacanas, eventos legais… Mas toda vez que existia a possibilidade de dormirmos juntos eu quase conseguia ouvir os pés estalando. Não dava mais.
Finalmente entendi a Dani, uma hora a convivência cansa, o pé irrita, o cereal com iogurte de cenoura (realmente, quem faz isso?) te dá nojo, os comentários param de ser engraçados.
Às vezes o tapetinho do banheiro é o suficiente.