Moça, Você É Fria

Foto “cold blood, cold heart” por:
karin and the camera

Era começo de 2001 e eu estava numa escola em São Paulo cursando a terceira ou quarta série do ensino fundamental; nunca tive muitos amigos, sempre me fiz pela distância, não gostava de pessoas tocando em mim sem que eu tocasse nelas primeiro. Era quieta, reclusa aos meus próprios pensamentos e fantasias.

Aquele dia uma garota da minha sala, Sabrina, salvo engano, cismou que eu precisava de um abraço, mesmo que eu tenha negado e inclusive corrido dela. Não abraçava nem minha mãe, por que abraçaria Sabrina? Pois bem, Sabrina conseguiu o abraço e eu, friamente, abri a garrafa de achocolatado que vinha na minha lancheira e despejei em sua cabeça. A eterna rebeldia que me segue.

Minha mãe foi chamada na escola, “sua filha não demonstra carinho as outras crianças”. Me encaminharam para um psicologo da instituição e ele disse o que eu já tinha cansado de repetir: “ela é uma criança normal, só reservada”.

(Muitos) Anos depois, já namorando há quase seis anos com uma pessoa que eu adorava mais do que qualquer coisa nesse mundo, me peguei numa discussão onde toda a questão do afeto vinha me perturbar de novo.

“Você não parece gostar de mim ou de ninguém, para ser sincero” — ele falou e eu me calei. Eu não tinha mais recursos para mostrar o quanto eu gostava (e ainda gosto, mas de maneira diferente) dele, eu fazia tudo o que eu sabia fazer para demonstrar o que eu sentia. Me faltava repertório. Me faltava abertura.

Sempre me fiz pela ausência e pelo silêncio, os meus melhores amigos raramente ouvem falar de mim, talvez eu tenha desabafado uma ou duas vezes em quase dez anos de amizade que eu tenho com alguns. A distância faz parte do que eu sou ou pelo menos do que eu me tornei.

Hoje, porém, o afeto — ou a aparente falta dele — veio me incomodar de novo. Eu não sou capaz de colocar em palavras o que eu senti quando ouvi da boca de alguém que eu aprendi a adorar em tão pouco tempo aquela frase maldita: “ela não tem afeto por ninguém, ela só gosta dela mesma. Desiste.”

Minha primeira reação foi a revolta, como que ele, justo ele, poderia falar algo assim? Justo ele que eu tento mostrar o quanto eu gosto todos os dias, justo ele que nunca teve uma palavra amarga minha, justo ele que eu trato como um irmão ou até melhor que um, tendo em vista a minha família. Justo ele.

O grande problema é que eu estou um pouco — na verdade, muito — cansada de revoltas, não consigo mais ficar nervosa e depois esquecer, agir como se nada tivesse acontecido. Nem com ele, nem com ninguém. Fico apenas triste e essa tristeza vai invadindo o pouquinho de qualquer coisa boa que eu sinto por aqui, me calando, me transformando num silêncio ainda maior do que já sou.

Pergunto-me, porém, se é possível que em algum momento da minha vida — seja lá com Sabrina ou com minhas relações atuais — eu fiquei tão solitária ou arrogante que eu já não consigo mais sentir, de fato, afeto por alguém.

Enfim, para o silêncio eu volto e lá vou guardando comigo todas as vezes que eu talvez não deveria ter ficado nele.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.