Não Vou Matar Ninguém Com Minha Caneta De Vinte Reais

Cenário: uma fila para a inspeção de raio X no aeroporto de Congonhas. Tem sete homens brancos e bem arrumados na minha fila.
“senhora, você foi escolhida para a revista visual aleatória” — por que será que eu já esperava?
Tirei meus tênis, meu relógio, esvaziei meus bolsos e lá fui para a tal revista aleatória. Antes que eu pudesse falar boa noite a funcionária do aeroporto veio a pergunta: “algum objeto cortante, senhora?”, o que prontamente respondo que não.
Ela abriu minha bolsa e lá estava a possível arma do meu possível crime: uma caneta. “A senhora vai ter que descartar sua caneta”.
Oras, do que me adianta andar com um bloco de notas por aí se eu não posso ter uma caneta comigo? Eu tinha a esperança de adiantar alguns textos, desenhar algo ou fazer uma lista de compras durante o vôo. Não vou.
Descartei a caneta e, aleatoriamente, me desloquei ao portão que estava no meu cartão de embarque. Portão seis.
Deu fome e vi uma máquina com cara de que teria alguma porcaria superfaturada que eu pudesse engolir. Eis que, para minha surpresa, vejo:
CANETAS. A máquina estava recheada de canetas. Uma igual a minha, preta e de ponta fina, inclusive.
A caneta custava Vinte Reais. Estava a 20 reais de uma possível arma de um possível crime que foi impedido aleatoriamente.
Um assédio de raiva tomou meu pensamento, estava cometendo vários crimes contra a funcionária anteriormente citada com a minha caneta. O texto da minha vida poderia ter saído daquela caneta… Eu poderia ter assinado um documento importante com ela.
Comprei um pão de queijo. A fome não passou.