O Caminho das Atitudes

Ou como a descoberta de uma bisavó me fez refletir sobre o tempo

Como toda páscoa, minha mãe e eu dividíamos o único ovo que tínhamos, dado pela minha vizinha em agradecimento a alguma gentileza qualquer. Começamos a falar da família e todas aquelas histórias que só ouvimos quando os mais velhos querem contar. Isso é algo que aprendi com o tempo, que esses momentos nos são obrigatórios de atenção.

“Você teve uma bisavó que foi muito mulher” — disse minha mãe antes de começar a contar as peripécias dela e toda sua atitude que explicaria muito, caso traços comportamentais sejam genéticos. Não acredito que sejam.

Librada Palácios era espanhola, casou-se com meu bisavô, sem nome na nossa história, e teve quatro filhos, os quatro homens. Librada apanhava diariamente de seu marido, era uma rotina, uma convenção. Os filhos ouviam, mas na época nada poderia ser feito e não existia a vontade da mulher em relação ao divórcio. Se bobear nem divórcio existia.

O último filho completou 18 anos em 14 de maio e então, após a comemoração, Librada fugiu. Sozinha. Pegou suas coisas e, considerando seu papel de mãe completo, seguiu seu rumo. Ninguém a achou por anos e anos até a encontrarem bem longe de onde moravam, ainda sozinha, e sem vontade alguma de voltar. Meu bisavô estava quase morrendo e implorando para vê-la. Ela negou até o último instante.

Ele morreu sem vê-la. Ela foi ao enterro e, segundo minha mãe que já era nascida, mandou em alto e bom som ele ao inferno enquanto dançava no meio do cemitério. Finalmente estava livre de verdade a Librada.

“Ela seria o que vocês hoje chamam de feminista, filha?” — me perguntou genuinamente minha mãe e isso me fez refletir o quanto achamos que inventamos as coisas nas quais acreditamos.

Librada com certeza não tinha acesso aos textos que eu li, nem alfabetizada era, não se via livre como eu me vejo, não tinha estudiosos do seu lado, não tinha quem a protegesse. Mesmo assim tomou uma atitude que todas nós recomendamos a nossas irmãs que tomem. Sem apoio.

Me peguei pensando em todas as mulheres do passado da minha família, me peguei pensando na minha mãe que talvez não tivesse metade das atitudes que teve não fosse o exemplo da Librada.

O que Librada estaria achando disso tudo? De toda essa resistência?

Eu sinceramente não sei responder, mas pensar nessa personagem que esteve na minha história e eu não conhecia até há algumas horas me faz sorrir.

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