O “House Of Cards” Do Brás
Ou como viver em condomínio é uma experiência politicamente bizarra.

Dona Maria — mais conhecida como minha mãe — é síndica de um pacato prédio do lado de cá da estação Brás — um desses da foto inclusive — há quase 8 anos com alguns períodos de “eu não aguento mais isso” e “vamos dar oportunidade para outras pessoas”; ou seja, cresci com o telefone e o interfone da minha casa tocando a todo momento, com os porteiros observando cada passo meu, com as outras pessoas da minha idade me olhando torto. “Olha ali a filha da síndica”. Pois é.
Durante as assembleias de condomínio, já tivemos polícia, gritaria, mulher quebrando o braço de outra, pessoas se acusando de roubo, xingamentos à advogada do prédio. Quase uma sessão na câmara, vejam vocês… Mas o mais engraçado ainda é acompanhar toda essa confusão do sétimo andar, quando a necessidade de falar invade a senhora minha mãe e temos os desabafos mais genuínos de uma pessoa que talvez nem aguente mais a mesma história com os mesmos personagens.
Dona Geralda
Este é o nome (obviamente fictício) da oposição neste prédio, uma senhora completamente fora de suas razões que grita o nome do zelador pela janela toda vez que ele está falando com a minha mãe. Poderia compará-la ao Bolsonaro ou ao Wladimir Costa, realmente um deleite de observar e se dar ao prazer de rir.
Certa vez, creio que sem pensar criticamente no que fazia, dona Geralda disse que da janela do apartamento de seu filho era possível me observar no quarto. Um dos porteiros comentou com minha mãe, que comentou comigo e fiz correr que a processaria caso alguma coisa acontecesse comigo ou algum objeto meu sumisse. Tendo em vista que falei isso ao porteiro, acho que ela já está ciente.
Hoje de manhã ela estava na portaria quando minha mãe desceu para buscar algumas coisas na feira. “Não sei para onde o dinheiro do condomínio está indo” — comentou dona Geralda ao ver minha mãe passar com a sacola de compras. Ela já não mais afirma com todas as letras que minha mãe rouba pois, há pouco tempo, dona Maria decidiu que não aguentava mais e a processou por calúnia. Ganhou. E apenas um pedido de desculpas foi feito por escrito e as acusações começaram a ficar mais veladas, maquiadas.
Fiquei sabendo também que, hoje pela manhã, ao descontrolar-se com seu Aldo (nome fictício), um dos porteiros mais velhos daqui, e começar a gritar que ele estava “do lado deles” levou um interfone na cara (não literalmente, obvio). Seu Aldo sempre foi o com menos paciência de todos; diz ele que Dona Geralda lembra sua sogra. Não consigo conter os risos quando lembro disso.
“Ó Dona Maria, eu tentei, mas a senhora sabe, tem hora que não dá não” — ele explicava ao telefone e minha mãe me olhava tentando segurar o riso. Foi realmente engraçado. Provavelmente dona Geralda vai pedir que ele seja mandado embora na próxima assembleia.
A Última Eleição e Reuniões Secretas
Na última eleição de síndico a oposição resolveu lançar uma chapa e foi uma das coisas mais engraçadas que eu já observei ainda do sétimo andar. Dona Maria pediu para que eu diagramasse um panfleto de campanha de sua chapa, sobre o que já fora feito e o que estava em construção.
Enquanto isso, o outro lado abordava os moradores no playground explicando qual era seu projeto de administração e quais seriam sua plataforma. “Temos que tirar essa mulher!” — dizia Dona Geralda. Minha mãe era a Dilma da vez.
As reuniões secretas aconteciam na casa de seu Augusto, no segundo andar do bloco B, mas era possível ouvir tudo quando se passava perto da janela de sua sala. “Como você acha que ela conseguiu o apartamento da filha mais velha?” — indagou uma voz feminina que não fui capaz de reconhecer; quando contei o que tinha ouvido a dona Maria o clima ficou tenso, vi que sua vontade era mandar o boleto do financiamento a eles. Não mandou. Uma pena.
Certo dia, seu Augusto estava na área de convivência falando com um morador sobre como minha mãe teria supostamente roubado o dinheiro por conta do apartamento de minha irmã. Minha mãe apareceu em sua frente e o homem ficou sem chão. Só estando lá pra ver aquele senhor de 1,80 de altura querendo abrir um buraco e se enfiar dentro. Minha mãe nada falou, apenas encarou o homem com seus 1,55 e se foi.
Eles perderam, queriam a anulação da eleição e o processo está correndo na justiça. Aparentemente não vai dar em nada. Pergunto-me se o próximo passo será o pedido de impeachment.
Giovani
O zelador — ou Santo Giovani como chamamos aqui em casa — é a representação do isentão; por sua posição do prédio tem que falar com todas as partes e, de vez em quando, acaba levando a culpa de coisas que não fez. Toda assembleia tem alguém pedindo que ele seja demitido, há 8 anos eu escuto vários argumentos para isso, mas ele não será, é um bom zelador.
Giovani tem um dialeto próprio, é quase possível entendê-lo de primeira e, quando nervoso, come palavras ou até frases; sinceramente tem horas que eu só aceno e depois tento entender o que foi falado. Mesmo assim, ele e minha mãe trocam se falam o dia inteiro, são ligações atrás de ligações, um caos.
“Filha ainda bem que tem esse WhatsApp né, agora consigo entender tudo que o Giovani falar” — disse minha mãe quando ele comprou um celular. Coitada, ele aprendeu a enviar mensagens de voz e o plano foi por água abaixo.
Toda vez que o Giovani fala que “tentou falar com o pessoal do elevador, mas ninguém veio” sempre rola aquela dúvida se eles não vieram porque são incompetentes ou se literalmente não entenderam o que estava acontecendo. Na maioria das vezes penso que a segunda opção ainda é a mais provável.
O Terceiro Poder
Pouca gente sabe, mas ser filho ou filha (ou filhe) de síndico é como exercer um terceiro poder involuntariamente. Qualquer comentário ou discussão dentro de casa pode afetar as decisões da administração em relação às pequenas coisas.
“Mas, tudo amarelo mesmo?” — eu comentei quando começaram a pintar as áreas de convivência lá em baixo. Era um daqueles amarelos que você encontra em sala de senhorinha com uns móveis de madeira escura e aquele cheiro de envelhecido. Não era um bom amarelo.
De repente alguns painéis de madeira apareceram e o amarelo não ficou tão incomodo. Ficou bonito até com os novos móveis. “E aí filha, o que você achou?” — dona Maria me perguntou assim que os painéis foram escolhidos.
Pouca gente sabe, mas tenho algumas vitórias aqui no sétimo andar, como, por exemplo, a instalação daquelas tomadas com veneno para os pernilongos na portaria. Outra vez, depois de dias e dias discutindo com dona Maria, consegui que abaixassem o aluguel do salão de festas.
“Não faz sentido ter um aluguel nesse valor se os moços da limpeza não recebem a mais para limpar o salão e o impacto na conta de luz é mínimo” — argumentei dia após dia até ela anunciar que abaixaria em 20%. Eu preferia a gratificação para o pessoal da limpeza, mas a redução também serve.
Horas eu sofro com essa posição que me foi imposta. Carlão, um dos conselheiros da administração, vive falar o quanto sou politicamente ativa em redes sociais. “Sua filha é muito feminista né, dá orgulho de ver” — ele fala com gosto, era professor de história e, aos 60, mochila por aí, sua próxima viagem será à Cuba.
Fato é que, vira e mexe, dona Maria tenta censurar minhas posições ou fotos que publico. “Não vai me publicar coisa bêbada hein, era só o que faltava pra dona Geralda sair falando por aí”. Caguei pra dona Geralda.
Das Ligações
Toda vez que eu escuto o telefone tocar e minha mãe falar “fala chefia” sei que é relacionado ao condomínio. Consigo fazer a conexão com as escutas que o Moro vazou do Lula, “fala minha querida”, “oi querido”, é realmente bizarro.
O problema de viver com alguém que tem um poder de manter relacionamento políticos a lá Lula é a falta de sensibilidade em relação aos horários das ligações, tem morador que liga aqui em casa depois das 23h, pelo amor de Deus!
O sinal de que o assunto é sério é quando dona Maria vai ao quarto atender a ligação. “Vamos ter uma reunião na Cohab segunda” — ela anuncia quando abre a porta do quarto e lá vamos nós para politicagem novamente.
“Filha, será que as outras pessoas conseguem ver minhas postagens no Facebook?” — ela indaga toda vez que quer falar mal de algum vereador aqui de São Paulo, vai que ele tem ligações com a subprefeitura e os serviços ficam mais difíceis de serem feitos na nossa rua. Vai que.
Em Suma
Viver em condomínio muito me ensinou sobre política e se hoje eu entendo um pouquinho que seja — afinal ninguém tá entendendo porra nenhuma — do que está acontecendo, a culpa disso é do telefone e do interfone que não param de tocar.