O Mínimo Que Eu Espero É o Caos

Foto “ Ato Jogos da Exclusão. 05/08/2016” por:
JOGOS DA EXCLUSÃO RIO 2016

Era trinta e um de agosto, minha mãe estava na sala sentada frente à televisão esperando o pronunciamento do finalmente presidente Michel Temer. Ela não estava feliz, não esteve durante os longos nove meses de processo; era engraçado ter este outro lado na minha casa, uma mãe que não coloca camiseta da CBF e vai a Paulista ou que não bate panela na janela.

Dois dias antes tínhamos assistido ao depoimento da Dilma em completo silêncio e, acreditem, quando falo da minha mãe isso é quase um milagre.

“Sei lá filha, eu não sei nem o que falar agora” — ela disse quando terminamos de ver o tal pronunciamento. O recado era claro: a corda, como sempre, estourará pro lado mais fraco; meu pequeno núcleo familiar, em partes, está incluído nisso. Na realidade, creio que o seu também.

Deixo claro, ambas somos críticas ferrenhas à Dilma por motivos diferentes, lutamos até o último segundo para não votar nela, mas, no final das contas, votamos. Uma sem criticar a outra, afinal desde pequena sou ensinada a lidar com as minhas próprias escolhas. Em 2013, quando o tal gigante que falaram que tinha acordado tava na praça, tanto eu quanto ela fomos às primeiras manifestações. Depois de ouvir alguns discursos “estranhos” largamos mão.

Ficamos umas duas horas falando de política; para ser sincera, foi quase um monólogo de uma mãe quieta há dois dias e que estava com medo, muito medo. Reforma da previdência, retomada da economia, revisão da CLT, minha mãe já tinha ouvido tudo isso num passado não tão distante.

O mínimo que eu espero de vocês” — ela me falava — “é o caos”, eu entendi muito bem o que ela quis dizer e vi exatamente isso acontecendo ontem no centro de São Paulo. Polícia começando a agressão com bombas sem motivo, manifestantes quebrando bancos e fazendo barricadas de fogo, policiais humilhando manifestantes desarmados. Era o tal caos.

Uma vez, no bar com alguns amigos de movimentos sociais, discutia sobre o mito do “protesto pacífico” — ou, como eu gosto de chamar, “manifestação festa de final de ano da Globo” — e, infelizmente, cheguei a conclusão que a sociedade brasileira ainda acredita que resolvemos algo com palminhas e abaixo-assinados. Não resolvemos nada.

Nenhuma manifestação se faz presente se não incomoda ninguém, nenhuma derrubada popular de governo se dá pelos meios burocráticos, nenhuma crise se resolve com Olimpíadas.

É mãe, o mínimo que eu espero também é o caos. E nele eu acredito. Talvez não agora, talvez não com Temer, mas está na hora da rua gritar mais alto.

E que venha o caos.

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