Sobre Estágios e “Estágios”

Foto “Out Into the World” por: Aaron Hawkins

São Paulo, 17 de dezembro de 2015, fui chamada para uma entrevista para estágio em uma grande rádio da cidade. Lembro que quase soltei rojões pela janela, afinal estava saindo do primeiro ano e isso ainda me soava irreal; sem contar todo o contexto onde eu odiava o emprego que tinha, minha chefe era louca e dias depois eu iria saber que a escola onde eu trabalhava fechou.

A entrevista tinha sido marcada para as 13h, portanto 12h30 eu estava lá de cabelo arrumado, roupa passada e aquelas respostas prontas para as famosas “onde você se vê daqui 5 anos?” e “por que você gostaria de estagiar aqui?”, a diferença é que eu realmente queria estagiar naquela rádio, sempre fui apaixonada pelo poder que o rádio pode ter. Anos de podcast não seriam em vão!

“Então, sua função será muito simples, mas extremamente importante” — disse a recrutadora — “não sei se você escuta a [rádio], mas fazemos algumas campanhas em eventos e entrega de kits no trânsito. Você ficaria responsável por essas entregas”

Naquele momento eu tinha duas opções:

  • A. aceitar ganhar R$800 para ficar na rua entregando kits de rádio e não aprender absolutamente nada sobre a função que sonhava em fazer.
  • B. não aceitar a proposta e manter (por mais dois dias) meu emprego bosta.

Uma verdadeira escolha de Sofia, se ela odiasse os seus dois filhos.

Não sei o que me motivou, se foi a revolta por ter acordado cedo e me preparado para ouvir que só faria isso ou o total desprendimento pela minha dignidade, mas interrompi a recrutadora, agradeci a oportunidade e me levantei. Quando estava saindo a moça, muito educada e cordial, me perguntou o porquê eu não tinha aceitado a proposta; sabe, são poucas as vezes na vida que a gente faz umas coisas das quais se orgulha e aquele momento foi uma dessas vezes.

“Vocês não estão procurando um estagiário, vocês estão atrás de um promotor” e sai. Sei que muito provavelmente eu não trabalho mais lá, pelo menos enquanto a recrutadora for a mesma, mas isso me fez enxergar com outros olhos as vagas para as quais eu me candidatava.

Entenda, o universitário quer fazer qualquer coisa para entrar na área e (algumas) empresas realmente precisam de mão-de-obra barata, é juntar o útil ao agradável. Tenho vários amigos que estão fazendo trabalho de editor e ganhando salário de estagiário, que não estão aprendendo nada de novo, apenas sendo mal pagos.

Não é difícil achar por aí vagas de estágio na minha área que pedem pacote Adobe, Final Cut (ou equivalente), inglês fluente e portfólio oferecendo uma bolsa-auxílio que não faz nem cócegas na parcela da faculdade. Universitário, meus queridos, não tem portfólio; ele ainda está gravando no salão de festas de uma pessoa do grupo e chamando de locação.

Minha história teve um final feliz, estou em um estágio onde aprendo todos os dias, tenho um supervisor que me ensina uma porrada de coisas e uma chefe que me escuta. Sei que sou exceção, mas não deveria ser.

Seria dar murros em ponta de faca pedir para que você, universitário que me lê, não aceite vagas como a da rádio, sempre vai ter algum outro que aceitará, mas saiba que muito provavelmente estão te usando como mão-de-obra barata, então corra atrás de umas empresas (sei que são poucas) que façam as suas 6 horas valerem a pena.