Sobre o fracasso

Eu sei. Você vai dizer que esse sempre foi meu sonho, que eu não deveria desistir, que eu sou mais forte que o vazamento de esgoto, o emprego mediano, e a falta de amigos.

Eu vou concordar. Vou me sentir um fracasso. Sem que você saiba, vou chorar do outro lado da tela. Vou procurar emprego e casa, posso até insistir. Mas farei tudo isso sem querer.

Tantas vezes eu fracassei. Eu não passei na USP. Eu não virei apresentadora do “Jornal Nacional”. Eu não ganhei medalhas por esporte. Eu não emagreci aqueles dez quilos. Eu não aprendi japonês. Eu não virei vegetariana. Eu não trabalhei na MTV. Eu nem sei como eu me formei.

Eu sou um conjunto de escolhas erradas, de erros do passado que refletiram nesse medo que eu tenho de mudança, de transformação. De ir e de vir. De entender que não tenho nada nem ninguém que me prenda, que me proteja, que me peça pra ir ou pra ficar.


Há anos eu cantava pro mundo que meu sonho era morar em Londres.

Estou em um emprego ruim, que consome 6 de 7 dias da minha semana, dez horas por dia. No meu dia de folga, não tenho amigos que possam sair comigo pra jantar. Eles estão em São Paulo, no Rio, na Irlanda, nos Estados Unidos. Longe de qualquer lugar que eu possa alcançar.

Eu me olho no espelho e sei que deixei meu sonho ruir. Não consegui fazer Londres funcionar. Essa cidade é tão linda, se turística, tem tanto a fazer, tanto a aproveitar. Meus amigos estão em empregos melhores, condições melhores, com contas bancárias maiores e conseguem viver algo que eu não consigo imaginar.

A luta que eu enfrento todos os dias é interna, é dura, e só eu sei o peso dos pratos que eu tenho que carregar.

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