Meus namorados e seus filmes

“Tá rolando uma retrospectiva do Kiarostami. A gente podia ir junto.”

Foi um convite real. Bem intencionado, tenho certeza, mas meio alvo errado, visto que sou uma pessoa que vai ao cinema ver filme de super-herói e comer pipoca com refil. O moço é cinéfilo, publica foto de filme velho no Instagram e tem um roteiro escrito-mas-nunca-terminado dentro de uma pastinha sobre o qual ele pode falar por horas a fio. E tudo bem. Mas gente não pode deixar o ciclo do cinema iraniano pra uma hora em que a gente esteja com preguiça de transar? Tenho medo de dormir durante o filme e decepcionar o pretendente.

Também é capaz que eu simplesmente não entenda nada do que está passando na tela e fique tensa tentando achar algo interessante pra falar. Tive um namorado, desses intermediários entre uma relação mais importante e outra, lá pelos vinte e tantos anos. Tinha estudado cinema na ECA e levou pra ver uma exibição de “Um Cão Andaluz”, o clássico curta surrealista do Buñel, numa edição da Mostra de Cinema de São Paulo. Você sabe, é aquele do bisturi no olho. Sofri durante os dezesseis minutos pensando no que diria quando o filme terminasse enquanto o olhava o boy com a mãozinha no queixo fazendo cara de inteligente e ouvia as pessoas na sala ora rindo, ora aplaudindo, ora expressando surpresa e aflição em interjeições. E eu lá pensando que loucura essa de filmar a culpa católica com tanta veemência lá em 1929, mas será que é isso mesmo? Sobrevivemos, mas a relação acabou pouco depois, quando ele quis me mostrar seu filme de conclusão de curso. Vou me abster de comentar porque não entendi nada, basta dizer que ali decidi que não só não tinha nada mais a falar como também não queria mais fingir que achava essa onda interessante.

Tem o oposto também, o cara que não entende nada de filme mas engana. Tipo um que eu amava mas não quis assistir comigo “Sob O Céu Que Nos Protege”, aquela maravilha de filme do Bertolucci, dizendo que “não gosta desse tipo de filme”. Ué? Um tempo depois de separar entendi que a gente consegue relevar qualquer coisa, mas que falta de gosto é uma coisa que marca mesmo.

Depois compensei com um namorado italiano chiquérrimo, formado em ciências políticas, poliglota e cheio daquele charme de cultura antiga italiana. Ele se orgulhava de jamais ter assistido nenhuma série de tv, de falar latim e lia grego antigo nas ruínas das cidades da Emilia Romagna por onde fizemos uma road trip ouvindo Black Death nas estradas cobertas de neve. Estava enganando bem e o italiano até se esforçou em me achar pitoresca, mas um dia a barreira cultural (e a distância oceânica) atrapalhou. Deve ter sido quando insisti em fazer ele assistir Game of Thrones comigo, justamente naquele episódio da quinta temporada que Jon Snow luta com o exército dos zumbis de gelo. Mas tudo bem, ainda somos bons amigos — tanto que ele ficou com a minha senha do Netflix.

Também teve um boy que pirava em Dario Argento, outro que gostava dos documentários de natureza da BBC, um que se dizia fã do David Lynch mas nunca viu Twin Peaks e meu ex-marido, um cara adulto com bom gosto tanto pra cinema trash quanto pra documentário politico e uma vez me acompanhou numa exibição de “Roma, Cidade Aberta”, uma óbvia amostra de boa vontade. E teve o Primeiro Grande Amor da Minha Vida, lá quando eu não tinha nem vinte anos, um menino lindo de olhos verdes e QI alto que depois de transar pela primeira vez (algo que a gente vinha enrolando pra fazer há pelo menos um ano pra fazer) rolou pro lado, acendeu um baseado e perguntou distraidamente, meio olhando pro teto no escuro… “e aí, você gosta de cinema espanhol?” Eu era louca por ele e ficamos juntos seis anos.

Corta pra hoje. Tô solteira (na pista, pra fechar negócio, procurando perigo, etc) há um tempo e assumo que sinto falta de ir ao cinema com um namorado. Tudo bem que maratona de série em casa é mais ou menos a mesma coisa, com a vantagem de ser mais barato e que você não precisa pegar fila, mas isso prefiro fazer com as minhas amigas que rola menos produção e expectativa. E cinema com namorado tinha aquela coisa de entrar na sala juntos, sabe, tem um lance de casalzinho que é gostoso.

Outro dia tive um date com um amigo num cinema. Date é jeito de falar porque é um amigo mesmo, desses amigos antigos e pra vida. Fazia tempos que a gente não se via fora de situação de festinha e depois de dez minutos de filme meu amigo vira pra mim e fala “tá chato, Gá, vamos sair e tomar um vinho?” Respondi que sim, claro, e foi tão ótimo que nem lembro do filme mas lembro do longo papo que a gente teve sobre nossos relacionamentos atuais e passados, sobre a noite de São Paulo, sobre como estão os amigos em comum que não vemos há tempos, sobre o Carnaval e etc.

É que às vezes o filme é só a desculpa pra estar junto. Tipo Netflix & chill. Tipo a retrospectiva do Kiarostami.