Mordendo o próprio rabo

Ela disse que ele volta. Disse com todas as palavras. Ele vai aparecer bem na sua cara e você não terá a menor dúvida do que ele quer. Tá muito claro. Respondi que ah, muito bem, então me vingo, agora vou me vingar. Ela disse que, olha, nem é uma questão de vingança, é mais de curiosidade, é bom entender, ouvir o que o outro tem a dizer, tudo bem. Só tem que tomar cuidado. Toma cuidado porque tem algo melhor vindo por aí e se você se envolver de novo é capaz de distrair e deixar passar e não é pra deixar passar. Pergunto o que tá vindo aí. Amor, meu amor, amor sincero e verdadeiro, amor enorme, aquele amor que lava tudo. Digo que não, obrigada, agora não dá, agora não quero. Ah, filha, mas você vai querer. E você vai se fuder, porque você já sofre pra dividir o tempo que tem entre o seu trabalho e sua família e seus amigos e você mesma e quando esse amor do tipo vagalhão chegar você vai ter que dividir seu tempo entre ele e todo o resto. Mas tudo bem, porque você vai querer. Mas e esse que vai voltar, é aquele mesmo? É ele sim, ela confirmou, é, é ele mesmo, e ele tá num trono e com o rei na barriga, na cabeça, no pinto e em todo lugar. Ele tá se achando. Coitado. Tá achando que você ainda quer e que quando ele decidir que quer também vai ser só uma questão de jogar as migalhas pra você aceitar. Que nem todas as outras vezes. Ele fez isso outras vezes? Fez sim, fez sim, mas ele não é má pessoa, sabe? Tento explicar meio para me defender e também porque acredito mesmo que ele não é má pessoa. Se fosse má pessoa eu não ia querer que voltasse. Mas você quer que volte? A pergunta vem antes de virar a próxima carta e eu coloco minha mão sobre a dela. Não. Olha, não quero ser ingrata nem injusta, mas não sou essa pessoa que se engana de propósito toda vez. Não quero que ele volte porque ele não tem nada pra me oferecer e porque minha vida melhorou depois que ele foi. E por causa disso aí que você falou do amor novo. Faz pouco tempo mas parece que faz uma vida. Até meu sono melhorou, sabe? Minha pele, minha vida social, meu trabalho, tudo melhorou. Acho que agora, de longe, tenho escolha. É isso? Ela diz que tem sim, tem sim. Mas tenho vontade de vingança também. Você acha errado? Porque na ultima vez ele foi sincero comigo. Foi ele que cortou esse barbante e ao fazer isso ele me libertou e sou livre outra vez. Não tá errado querer me vingar? Conto daquele jeito que também é uma pergunta e ela insiste que não é vingança. É que sua cabeça é curiosa. Você vai querer saber o que ele tem pra dizer. Você quer ouvir. Você quer entender. Mas você precisa aprender a ouvir quietinha, fazer as perguntas que sempre faz e dar o bote, ser a cobra que é. Sabe a história do escorpião e da rã? A serpente que você é, você não pode evitar, você vai machucar, vai tirar sangue mesmo, vai envenenar. Ah, esse aí, ele tá fudido na sua mão, ele vai chorar nos seus pés, pode acreditar. Tá, mas sabe que pode não ser bem ele? Porque tem outro, tem esse aqui, eu disse e virei a carta. Não, não é esse. Esse é outra coisa, esse tá começando agora e ele é bom e ele tá doido por você, louco por você. batendo punheta pensando em você todo dia quando chega em casa. Dá uma chance pra esse. Digo que não sei se quero dar uma chance. Não tem aquele grande amor chegando? Ela diz que esse que tá chegando agora pode se transformar nesse tal grande amor, não dá pra saber. E se for? Fiquei pensando se ela sabia e não queria me falar ou se essas coisas realmente se transformam. Tem o livre arbítrio, minha filha, ela disse lendo meu pensamento. O que eu leio é só uma parte. O que você faz é mais importante. Concordo, mas sou obcecada com vingança. Chorar nos meus pés, quando? Nas próximas cinco semanas, ela falou. E o tal do grande amor? Em três meses, mais ou menos. E a viagem que eu tenho? Pode ser que apareça antes. E daí como que você faz? Daí ele me espera. Talvez ele não queira esperar. Amor sincero e verdadeiro espera. Eu acredito. Mas enquanto isso não acontece quero saber do outro, lá, o que vai chorar nos meus pés, ele não pode voltar e se transformar nesse amor sincero e verdadeiro que você tá falando? Porquê? Você acha que pode? Pensa bem, você não tem que me perguntar, você já tem essa resposta, pergunta pra dentro, nem vira carta alguma, você acha mesmo que pode? Não sei a diferença entre o que eu acho e o que eu quero. E o que você quer? Eu queria que fosse ele, sim. Sou doida por ele, sabe? Não é. Hã? Não, você não é doida por ele, você só ficou obcecada com essa história porque você não se conforma com um homem que não beija o chão em que você pisa. É diferente. Você acha mesmo que vocês seriam felizes juntos? Pensa bem, pensa em tudo que você já me contou aqui nessa sala e pensa em tudo que você não me contou. Você acha que dá jogo? Eu olho pra baixo e começo a mexer com o botão da camisa antes de dizer que não, não dá e recomeço aquele discurso sobre não ser a pessoa que insiste no erro. Ela ouve, paciente, e corta. Nem precisa virar essa carta. Você já tem essa resposta. Mas ele vai voltar, você disse. Vai, ele vai voltar e você não vai ter dúvida do que ele quer, ele vai aparecer na tua cara, na porta da sua casa, na sua frente. Meu sorriso voltou e eu ri alto. Ah, mas esse vai pastar na minha mão. Abracei as mãos no peito. Esse aí vai comer grama, cê vai ver, ah, mas desse eu vou judiar. Não foi por mal, é a minha natureza, a serpente falando, ela que mora aqui dentro, enrolada no meu coração, que envelhece e passa fome e sofre e troca de pele e renasce cheia de vida e de vontade. A serpente que enrola e demora e pensa bem, pensa muito bem. A serpente que faz a hora, quando ela dá o bote não erra. Cê quer vingança? Ela perguntou. Quero, respondi. Cê vai ter, não vai demorar. Cê vai ter tua vingança, cobrinha. Só não distrai com o que não importa.
