Onde você estava no 7 x 1?

Sim, sim, lá mesmo.

Eu estava na Ilha de Páscoa, o que é sempre legal para começar uma conversa. No geral as pessoas sabem nada sobre a ilha. Conhecem de livros ou do Instagram as estátuas de cabeças gigantes chamadas moai mas não sabem, por exemplo, que a Ilha de Páscoa fica no meio do caminho entre a costa do Chile e a Polinésia e é uma das ilhas habitadas mais isoladas do mundo. Que a cultura/etnia/língua local chama rapanui. Que durante muito tempo a ilha foi propriedade de uma companhia européia que criava ovelhas e por isso há muros de pedra escoceses num cenário de ilha do Oceano Pacífico. Que as pedras usadas para fazer os murinhos foram arrancadas dos altares dos moai e muito da historia rapanui foi perdida por essa falta de cuidado do homem branco. Não sabem que a comida da ilha é sopa de mariscos e empanada de atum nem que os moai (pasme!) tem corpo ou que alguns estão no fundo do mar. Não sabem que em julho a ilha fica vazia de turistas. Assim:

Foi nessa situação fora de temporada que fui parar lá, em plena Copa do Mundo 2004, convidada por um resort local. Levei na mala uma camisa amarelinha pra ver o jogo e no dia e hora certos montei na bicicleta emprestada e saí procurando um bar com televisão. Pedalei até a banca de empanadas de atum, até o mercado central, até o barzinho com temática tiki da rua principal e finalmente encontrei um lugar: um café com varanda de frente pra rua que tinha uma TV e estava reunindo os poucos entusiastas da Copa na ilha, incluindo uma uma dupla de pai e filho alemães muito gentis e educados, que me cumprimentaram e desejaram boa sorte, e uma chilena de descendência rapanui absolutamente fã do Brasil e com passagem comprada para ver a final no Maracanã na semana seguinte.

Como a brasileira do rolê eu estava, claro, me sentindo muito in. Puxei assunto com estranhos, pedi uma cerveja, sentei numa mesinha na varanda. Vestida com a camisa canarinho e possuída pela arrogância atroz que acomete os brasileiros em época de mundial, me comportei como se não tivesse a menor dúvida: nós vamos arrasar. Não basta vencer tem que dar espetáculo.

Começou o jogo e eu não preciso te contar, certo? Todo brasileiro sabe como foi o 07 de julho de 2014, todo mundo tem sua anedota pessoal de “nesse dia eu estava, blablablá”, todo mundo conhece alguém que tem um tio de um primo de um vizinho que foi parar no hospital de nervoso e desilusão. E todo brasileiro sabe como eu estava me sentindo já na metade do primeiro tempo, uma mistura de incredulidade, raiva, vergonha e uma súbita aceitação de que… caralho, isso está acontecendo mesmo. Os gentis alemães do rolê olharam na minha direção nos primeiros dois gols e depois, constrangidos, foram embora no intervalo para escapar dos chilenos que insistiam em participar da comemoração enquanto eu virava uma cerveja atrás da outra, acometida pela sensação de já não entender se os gols eram replays ou se eram gols mesmo.

Daí tem a culpa. Essa mais uma vez em que quebrei minha tradição pessoal de ver jogo do Brasil na Copa do Mundo sozinha em casa. Desde aquela Copa do Mundo de 2002 toda vez que vejo jogo da seleção sozinha em casa dá certo: o Brasil ganha. É bonito mas também é meio chato e não é sempre que dá pra ser leal à mandinga. A final de 2002, por exemplo, eu vi numa rave e rolou. Já em 2014 eu estava viajando a trabalho. Era uma questão de ir e torcer pelo melhor, afinal, como é que meu deslocamento geográfico altera o resultado de um jogo? Não altera. É claro que nem toda fé do mundo faria o Brasil ganhar da Alemanha aquele dia, mas quem sabe todos os brasileiros quebraram suas mandingas pessoais ao mesmo e a gente teve que encarar perder justamente a nossa Copa de goleada. Foi o pior momento da historia do futebol brasileiro, ponto, e hoje, exatos quatro anos depois, nós estamos tão desesperados por redenção que até acreditamos que dessa vez iria dar hexa. O brasileiro é um povo de fé.

É um povo com a simpatia global também. Eu contava com isso, mas fui aos poucos observando como a simpatia se transformava em piedade e depois em escárnio puro e simples. Os chilenos da ilha ainda estavam com a derrota para o Brasil uma semana antes (foi… estranho, lembra?) entalada na garganta e, vendo o papelão que o time estava fazendo, se sentiram confortáveis para mudar de lado. Meus colegas de mesa levantaram. A moça rapanui fã da Seleção estava consternada no limite de não conseguir sequer falar, amaldiçoando o momento em que tinha compra passagens e se conformando que iria para o Rio de Janeiro ver Alemanha x Argentina. Num dado momento pessoas começaram a passar de bicicleta na frente do boteco para rir da brasileira miserável.

Eu podia ter comprado briga, podia ter levantado e ido embora, podia ter encarado com bom humor e entrado na brincadeira. Podia ter aceitado as condolências dos alemães e abraçado a amiga rapanui para irmos embora juntas chorando pelo centro de Hanga Roa. Mas só consegui ficar sentada lá, prostrada, assistindo a ruína de um sonho que eu nem tinha. Entre piadas e provocações consegui apenas manter os óculos escuros abaixados sobre os olhos e torcer o meio sorriso ocasional. Paguei a conta e subi na bicicleta, planejando pedalar até um canto da ilha enfeitado por um altar de moais, onde geral vai ver o pôr do sol, para deixar o vento limpar minha cabeça. Ao invés disso o que eu consegui foi atrair um grupo de crianças que, atraídas pela indisfarçável camiseta amarela, vinham correndo e gritando atrás da minha bicicleta. Bem feito, viva a Alemanha, volta pra casa, chora mesmo, Neymar já era, David Luiz chorão. Haha. Por causa do chão de terra e grama eu não conseguia ganhar velocidade e quanto mais eu pedalava mais moleques da ilha se juntavam ao grupo. Quando cheguei ao pico já tinha desistido de ficar, mas estacionei a bicicleta para recuperar fôlego e olhei pra trás — umas dez ou quinze crianças, tão mal intencionadas quanto um grupo de moleques afobados pela torcida contra o maior nome do futebol de todos os tempos pode ser. O futebol brasileiro é muito amado mundo afora e detestado na mesma intensidade. Parei e eles ficaram olhando de volta. Eu podia largar a bike e sentar pra ver a tarde descer no mar, mas também podia acabar ficando sem bike ou com um pneu furado.

De repente eu só queria o conforto do meu quarto escuro no hotel chique com todas as janelas fechadas. Fazer valer aquele convite do resort, pedir sopa de peixe e vinho branco para jantar, tomar banho de banheira com espuma, não olhar emails ou WhatsApp por uns três dias. Me isolar da ilha mais isolada do mundo por algumas horas, talvez para sempre. Mas para fazer o caminho de volta ate o hotel eu tinha que atravessar o grupo dos párvulos chilenos e a chance de que eles não iam me deixar passar incólume era grande.

Foi coisa de segundos. Puxei acima da cabeça minha camisa amarela novinha que imitava a camisa da seleção de 1970 e joguei no chão. Os meninos ficaram mudos, encarando meu sutiã e meus dois braços mirradinhos e tatuados. Subi de volta na bicicleta e pedalei forte na direção do grupo, que me deu passagem sem dizer palavra.

Não olhei pra trás pra ver se alguém pegou a camisa, mas fiquei torcendo para terem jogado no mar junto com os moai.