Paulista com Augusta, noite de sexta

Gaía Passarelli
Jul 25, 2017 · 4 min read

Hoje o maluco que berra sobre o fim do mundo tá dentro da estação Consolação, logo após as catracas, na direção da escada rolante do lado Centro. Deve ser por causa do frio, que deve bater sete graus em São Paulo. Ele vocifera algo sobre a Hecatombe, o fim dos tempos, a batalha final da humanidade. Tem jeito de cheirar a roupa suja e leite azedo, usa um terno marrom duas vezes seu tamanho e tem cabelos compridos ralos ao redor da careca redonda e, apesar do frio, tá todo suado. Ele está sempre por perto da saída da Consolação, onde passo quase diariamente, mas nunca parei pra ouvir. Primeiro que o barulho é alto demais. Segundo que tenho receio de que comece a falar diretamente comigo. Normalmente ele tá falando pra ninguém.

Subo as escadas rolantes e pensando quando foi que São Paulo começou a ter esse fluxo de gente digno de capital asiática. Talvez eu fique demais em casa, mas não lembro de ser assim antes, pelo menos não fora de situações como saída de grande evento ou o horário de pico na Sé. Mas a muvuca da noite ao redor da esquina da Paulista com a Consolação é outro tipo de pico, é um rush com energia de descarrego, um fuá. Todo mundo correndo em direção ao final de semana, pra longe do trabalho e da faculdade e pra dentro do que quer que seja necessário para espantar a poeira da rotina. Outro dia, quando ainda era verão, passei por aqui com um amigo gringo e ficamos vendo uma travesti de biquini preto, descalça, numa performance circular ao redor de um poste de trânsito, acompanhada de um cara com uma guitarra e outro com um pequeno teclado. O som não fazia sentindo algum, mas a cena era maravilhosa porque é o tipo de coisa que se faz só porque deu assim uma vontade de dançar de biquini na rua.

Hoje não tinha nada assim, mas tinha os vendedores de qualquer coisa ocupando a porta de saída, seguidos pelo batalhão de hippies exibindo artesanato feio na calçada na frente do Center 3. O guitarrista magricela vestido de Pikachu que eu já encontrei no ônibus de manhã, eu a caminho da terapia, ele vestido de Pikachu, dormindo abraçado no estojo da guitarra com os pés por cima do amplificador. Ele fica no mesmo lugar onde, tradicionalmente, o Elvis da Paulista se apresenta aos domingos. Descontando a calçada do Trianon, esse deve ser o metro quadrado mais disputado por artista mambembe na área.

Tem uma roda ao redor de um menino também. Acompanhado de um colega fazendo beat box ele declama algo que parece urgente mas que fica escondido debaixo das palmas ritmadas do público e do barulho dos ônibus partindo no sinal recém aberto. Uma turma de minas trans sai do prédio da Anhembi Morumbi e passa pela senhora latina que vende bijuteria feita com cordões coloridos, na frente do café de cadeia gringo. Ao lado, um casal jovenzinho faz um dueto de violino. É a melodia de “Mio Bambino Caro”, a ária emotiva que todo mundo reconhece de comercial ou de filme. Paro pra ver porque musica clássica-meio-brega é comigo mesma e me emociono porque eles são bem ensaiados. Ao final, se beijam, as pessoas aplaudem e eles passam o cartaz: estão pedindo dinheiro para poderem se casar. Não sei se o casar deles é uma questão de cerimônia ou de coisas práticas tipo comprar geladeira. Provavelmente os dois, talvez um truque. Funciona: moedas e notas de R$2 caem no estojo de violino aberto.

Ainda nem cheguei na esquina. Não falei do doidão de barriga de fora e camiseta por cima da cabeça que de tanto em tanto tempo encontro perto ali dos prédios dos bancos provocando os seguranças. Um dia antes da Greve Geral de abril ele estava gritando com as pessoas, dizendo pra não vir pra Paulista, que ia correr sangue. Ninguém se importou. No dia seguinte teve discurso do Lula para 300.000 pessoas.

Às vezes acho que tô ficando louca, como esse maluco e como o senhorzinho da Hecatombe dentro da estação. Esqueço de comer, tenho pensamentos obsessivos, alimento amores impossíveis. Mas no fuá da avenida percebo que não sou só eu. É nosso tempo. Hoje mesmo, depois de comer pastel de nata naquele lugar português bastante decente perto da casa de sucos, vi uma mulher caminhando rápido na minha direção. Ela carregava uma pastinha plástica e vestia roupas normais, do tipo de trabalho em escritório, calça preta, camiseta, uma malha, uma mochila mais pro prático do que pro bonito nas costas, sapatos sociais baratos, cabelo preso num coque. Chamava a atenção porque estava furiosa, gritando pro nada algo sobre “isso não vai ficar assim, você vai ver, isso não pode ficar assim, eu vou lembrar”. Achei que estava falando num telefone, quem sabe no fone de ouvido, mas não. Ela estava falando, gesticulando com os braços enquanto andava, e estava falando pra mim, depois pra pessoa atras de mim e pra pessoa atrás da pessoa atrás de mim, falando pra quem pudesse escutar: o mundo está acabando, mas isso não vai ficar assim.

Foto: Marcos Lamego via Flickr com licença Creative Commons.

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